quinta-feira, 15 de abril de 2010

POEMAS DE MALCOLM DE CHAZAL

A luz
Com
Cada cor
Muda
De
Pele.

O amor
Sem
Meta
É
A fonte
De
Todos
Os ódios.

As cifras
Sempre
Se
Enganaram
Por causa
Do zero.

As palavras
Desde
Tempos
Imemoriais
Procuram
Sua
Significação.

O espelho
Conhece
Apenas
Suas costas.

Deus
E
Diabo
Reunidos
Dão
Histeria.

* * *

Os barcos
São
Femininos
Nos
Portos
E
Machos
No mar.

O nascido-cego

As cores
Dos
Sentimentos.

* * *

A lógica
Nunca
Se
Raciocinou.

O pássaro
Que
Tem medo
Se sente
Na gaiola.

Quando
Uma rocha
Morre
Ela não
Precisa
Se enterrar

O fio
É
Uma linha
De ruptura.

Tradução: Éclair Antonio Almeida Filho

(Leiam mais poemas do autor na edição de maio da Zunái.)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

GALERIA: FRANCISCO FARIA (I)


POEMAS DE JOYCE MANSOUR

Receba minhas preces.
Engula meus pensamentos poluídos.
Purifique-me: que meus olhos se abram
Vejam o sorriso interior dos assassinos.
E uma vez pura
Judas crucifique-me.

* * *

Era ontem.
O primeiro poeta urinava seu amor
Seu sexo em luto cantava ruidosamente
As canções guturais
Das montanhas
O primeiro deus ereto sobre seu halo
Anunciava sua vinda sobre a terra esvaída
Era amanhã.
Mas os homens com cabeça de gato
Comiam seus olhos embaraçados
Sem notar suas igrejas que queimavam
Sem salvar suas almas que fugiam
Sem saudar seus deuses que morriam
Era a guerra.

* * *

O APELO AMARGO DE UM SOLUÇO

Venham mulheres de seios febris
Escutar em silêncio o grito da víbora
E sondar comigo o baixo nevoeiro ruivo
Que infla de súbito a voz do amigo
O rio é fresco em torno do corpo dele
Sua camisa flutua branca como o fim de um discurso
No ar substancial avaro de conchas
Inclinem-se moças intempestivas
Abandonem seus pensamentos de chapeuzinho
Suas imbecis molhadelas suas botas rápidas
Um redemoinho se produziu na vegetação
E o homem se afogou no licor

Tradução: Éclair Antonio Almeida Filho

(Leiam mais poemas da autora na edição de maio da Zunái.)

terça-feira, 13 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (XIII)


CÂNONE E ANTICÂNONE (X)

Antero de Quental diz ainda, em A Dignidade das Letras:

"Não, meus senhores. Eu não tomei nas mãos o pendão só pelo amor da destruição.

Menos, a presunção orgulhosa de gladiador novo, cuja audácia impaciente não conhece prudência e procura os mais robustos e aguerridos para o desafio e o combate. Menos ainda, o escândalo. Não, meus amigos. Não vale realmente a pena comover-se a gente quase até a veemência, indignar-se quase até ao sofrimento, chamar a sua inteligência e o seu coração, só para responder com grandes frases a pequenos golpes de gente ainda mais ignorante do que malévola.

(...)

Não foi por isso, pois, que eu intentei fazer desacatando a venerabilidade sacerdotal do sr. Castilho. Não foi defender uma escola, um grupo, uns homens. Foi só defender a liberdade e dignidade do pensamento, que nesse momento se ofendiam na chamada escola de Coimbra, no trabalho de alguns homens (bom ou mau, não curei de o saber) mas trabalho livre, independente, trabalho santo pois, e digno de respeito.

(...)

Sem espírito não há liberdade; sem liberdade, não há espírito. Ora, esta é a alma, a vida, a essência das literaturas, da poesia, da arte, de todo o trabalho do pensamento e da inspiração. Literatura que respeita mais os homens do que a santidade do pensamento, a independência da inspiração; que pede conselho às autoridades encantadas; que depende de um aceno de cabeça dos vizires acadêmicos; essa literatura não é livre – ubi liber tus ibi spiritus – não tem, logo, espírito, não é viva e poética... não existe pois como coisa alta e ideal, isto é, não existe, porque só ideal e alta se concebe literatura e poesia. Bastava-me isto só para condenar o sr. Castilho, as suas doutrinas, o seu procedimento. Se isto é verdade, se não há verdadeira poesia fora desta alta e digna independência, o sr. Castilho é o maior inimigo da poesia portuguesa, porque quer matar nela aquilo que é a sua essência, a sua força, a sua vida.

(...)

O escritor quer o espírito livre de jugos, o pensamento livre de preconceitos e respeitos inúteis, o coração livre de vaidades, intemerato e incorruptível. Só assim serão grandes e fecundas as suas obras.

(...)

Ora concebe-se, já não digo o grande homem, que nem todos podem ser, mas o homem de bem, que todos têm obrigação de ser, pedindo o auxílio de uma autoridade qualquer para pensar, consultando o termômetro da conveniência e aprovação dos mestres para falar, recebendo o santo e a senha como um soldado disciplinado, feito autômato e escravo na coisa espontânea e individual por excelência, o pensamento? Um homem de bem não faz isto: e toda a literatura que o faz é uma desonesta literatura.
(...)

Se a tirania da moda e da opinião é insuportável, não o é menos a dos mestres e das reputações opressivas e orgulhosas; que tendo-se em vista dizer alguma coisa nova, descobrir, não copiar e repetir, bom é que haja liberdade de procurar, que não se perturbe nunca o pesquisador de bem e de verdade, ainda aquele que a pretende encontrarnos desvios mais arredados e estranhos; que se creia no possível e se respeite ainda o erro quando for filho de um desejo tão sincero e de um tão honroso empenho. Ora isto é que não fazem as literaturas oficiais. Não concebem salvação fora do grêmio estreito de suas igrejas, para não dizer capelas e oratórios. Não entendem outras palavras senão as poucas do seu dicionário incompleto e mutilado. Acham que o mundo está todo explorado, todas as ideias, todos os sentimentos, todas as formas, e que tudo isso o têm eles nas suas gavetas e nas suas pastas.

(...)

Isso assim pode ser que seja útil, fácil, vantajoso; pode ser que assim se conquiste a opinião das maiorias boçais, que dão a fama, ou o favor, das minorias inteligentes, que dão alguma coisa melhor do que a fama, que dão a importância, o interesse e o poder. Pode ser que seja hábil isto e até profundo – só não é nem digno nem verdadeiro.

Mas são assim as literaturas oficiais, governamentais, subsidiadas, pensionadas, rendosas, para quem o pensamento é um ínfimo meio e não um fim grande e exclusivo; para quem as ideias são uns instrumentos de fortuna mundana, uma ocasião mais de sacrificar as pequenas ou más paixões, em vez de serem uma fortaleza onde se guardem do contato das impurezas e das misérias; para quem esta santa tribuna da palavra não passa de um marco donde lancem o pregão de vergonhosos leilões; para quem a glória é uma especulação feliz, não uma sagrada palma que épreciso colher com mãos puras; para quem, enfim, nobreza, desinteresse, ideal, sinceridade, sacrifício, são apenas boas e sonoras palavras.

(...)

São assim as literaturas oficiais; e o que mais, podem ser doutro modo?

(...)

Como não buscam a verdade pela verdade, a beleza pela beleza, mas só a verdade pelo prêmio e a beleza pelo aplauso, têm de as renegar tantas vezes quantas a beleza não agradar aos olhos embaciados da turba que aplaude, e a verdade ofender os senhores que premeiam e recompensam.”

segunda-feira, 12 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (XII)


CÂNONE E ANTICÂNONE (IX)

Antero de Quental publicou em 1865 A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais, texto de polêmica com Antônio Feliciano de Castilho que mantém plena atualidade, não apenas pela força das ideias, mas sobretudo pela atitude ética do poeta português. Transcrevemos aqui alguns trechos, mas vale a pena ler o texto na íntegra.

“Devo estas explicações ao público e a mim mesmo sobretudo.

Sim: sobretudo a mim, à minha própria dignidade moral. Na hora em que eu não pudesse confessar sem receio ou vergonha, a esse severo juiz que temos dentro, os motivos de uma opinião, de uma frase, de uma palavra sequer proferida numa ocasião grave, na hora em que me visse obrigado a ocultar a consciência, que julga e sentencia, um só ato da inteligência, que pensa e determina – fosse embora aquela frase brilhante e aplaudida, fosse aquela determinação atrevida e admirada – eu é que não poderia nessa hora sentir nos lábios as doçuras do triunfo, mas só no coração todas as amarguras de uma consciência perturbada, o fel da baixeza e da injustiça própria.

O público, esse, tem direito a perguntar-me por que me levanto contra as imagens gloriosas ante que ele se inclina; por que não admiro o que ele ama; por que não respeito o que ele adora; por que me atrevo contra o voto das gentes e a opinião comum.

Estranho desacato, com efeito! Na pessoa de um dos seus escolhidos, ofendi eu toda a opinião, o juízo, o gosto, o sentir de quantos o tenham levantado sobre os braços e sentado na cadeira da autoridade e da glória. Reputam-lhe merecimentos dignos de admiração e respeito. Eu, revoltando-me, é como se dissesse ao respeito e à admiração pública: ‘Sois cegos e insensatos; enganai-vos; o que a todos vos enleva e faz pasmar não é grande gigante, é só nuvem e fumo mentiroso’.

Isto é grave. É preciso firmar-se quem disser isto em boas e sólidas razões, porque se não contradiz tanta gente só pelo gosto de contradizer. Ao público devemos-lhe isto: de lhe não falar, senão em nome de alguma coisa alta, de algum bom princípio, de alguma razão inabalável.

É o que a mim me acontece.

Se ao público e à consciência que me interrogam pelos motivos de uma ação grave por mim praticada eu não tivesse para responder senão paixões, capricho, vaidades, eu seria então, para aquele, quando muito, um iconoclasta atrevido mas sem nobreza nem razão, e o que é pior, para esta um espírito escurecido, sem clarão de justiça, sem luz moral.

Nada disto acontece, porém. Interrogo-me na austera serenidade do meu trabalho interior e acho-me limpo e inocente. Não sacrifiquei ao orgulho, ao interesse, ao egoísmo da mais pequenina das vaidades — a vaidade literária. Nada disso. Falei verdade: e esta só palavra explica o silêncio, ou os desconcertos, piores ainda que o silêncio, daqueles a quem me dirigi; e por outro lado, explica a serena constância com que me levanto de novo para sustentar, para confirmar os sentimentos, as idéias e as palavras que esse amor da justiça e da razão me inspirara.”

O texto de Antero de Quental é enorme, e com certeza não cabe no espaço de um blog, mas irei divulgando aqui alguns trechos mais contundentes.

A Dignidade das Letras um exemplo de manifesto polêmico, apaixonado, mas ao mesmo tempo com embasamento intelectual e ético, o que faz tanta falta às discussões literárias hoje em dia.

domingo, 11 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (XI)


PAPEL DE RISCOS


TELA BRANCA

Sob o branco
a luz
sombras e curvas
cinema
grafo de peles
e poros
tela branca
nódoas
promessas
girassóis.

Sob a trama
olhospestanas
pele em ondas
e sua voz sob a sombra
cega
ceifa
meus girassóis.

COMO SE E NADA FOSSE

Sob a luz
como se
sumisse
como se
a luz
submissa sentisse.

E este silêncio...

(como se dissesse tudo
e nada fosse)

amortece
como se
uma sonda
emigrasse
sob a luz sua sede
e sonhasse
no vazio da mira
a sombra
do impasse.

* * *

DISSONÂNCIAS

Para o Lau,
um poeta que se desnuda
olhando a lua
em noites de lua
nova.

e esse encanto
a lápis desenhado
cada nota
na pauta
é como se
a falta
ecoasse um lá
num dó
em desacordes
de mim.

(Poemas de Susanna Busato. Leiam mais no blog http://www.meupapelderiscos.blogspot.com/)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (X)


NIGRA SED PULCHRA


venus amoris: bela, aphrodisea, labial, naturalis, divinal, imagini magi: perversa, polimorfa, bárbara arcana, gótica picatrix, putana: poma floresque in manu dextra (occulta) & in sinistra erecti ignem flores: faminta, ofídica, felídea, curvilínea, bestia domina, encantatrix, bruxuleante: Alucinógena Máxima: plutônica, úmida, cálida fenestra: arrogante, amorosa, barroca virgo violata: vagabunda, adorada, phoecunda: venérea venerada
* * *

TESSERA: DUPLO RAPTO

Era um escândalo que estivessem no Pai sem percebê-Lo

Estamos entrando agora na zona de sombra (estriada) do Estranhamente Outro, / dos velhos vinhos do inverno quando os jardins sibilam lentos & iniciam seus incêndios / & a cauda do pavão se agita & repousa sobre estas pálpebras de citrino / na febre africana das estrelas que estremecem nas bordas do zodíaco & desabam / sobre as afinidades eletivas destes rastros entre brasas novamente recicladas / nas órbitas excêntricas da alta pirataria do pensamento cósmico-planetário, / nas chamas xamânicas das palavras repetidamente iluminadas & obscurecidas / (ó lábio carnal da realidade que bebe meu sangue & retorna) / com todas as suas penas & garras de ave de rapina & suas escamas & línguas bifurcadas de serpente / o Grande Espírito / dançou / seus lentos milênios de cópulas, de mundos que se desintegram / & refazem: chamem seus animais, chamem suas fêmeas para presentear a Presença: poções, /ó veneno/ abrindo tuas entranhas com estes outonos de Sol, turvos & turbulentos, / enquanto meu tato toca peles pintadas de panteras & o elétrico veludo das negras arraias / entre as estranhas mutações desta crisálida, entre novos objetos & animais em vias de extinção, / devastando o vasto banquete do universo & todas estas orgias & tragédias / (ó lábio carnal de ninfeta que bebe meu sangue & retorna): / nós pagãos seríamos chamados a sonhar juntos, hereges de uma outra linhagem, a Ausência Ardente, / & exposto assim à verdade vertical do absoluto o verão vem terminar sua viagem / no grande trígono astrológico do amor (sublime), da baderna & da beleza (bárbara) / & quando a primavera novamente menstruada regressar com a morte entre as pernas & estes alegres carnavais cruéis / eu estarei Silencioso & Louco //(repito literalmente & em todos os sentidos minhas verdes alucinações de ervas, nossas Línguas Ébrias / & lúcidas). // A outra voz vem da vertigem.

S. Paulo, 1980 - Visconde de Mauá, 1982 - S. Paulo, 1992

(Poemas de Rubens Zárate. Leiam outros textos do autor no blog http://nigrasedpulchra.blogspot.com/)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (IX)




CHOCOLATE AMARGO

PORÉM

A noite está calma calma calma calma.
Porém, o trompete está nervoso.
A melancólica, porém doce lembrança
de quando acordou apenas com as pérolas
no bar dos marinheiros.
A metálica, porém fosca cobrança
de quem deixou as sandálias
na rua dos salgueiros.
Tudo está bem agora.
Está tudo certo.
A noite está calma calma calma.
Porém, o escuro está inquieto.

ANOS LOUCOS — A ERA DO JAZZ

Anos loucos
Ela murmurava dormindo
Anos loucos
Ela sonhava ronronando
Imaginando ser Zelda Fitzgerald
Uma gata dormiu esperando a dona
Cujo colo é adornado por um pequeno crânio de prata.
Anos loucos para as duas
Que o anjo de Rolls Royce amarelo sempre as acompanhe
Vida de jazz, amor e champanhe

* * *
Uma moça com cheiro de curry e gengibre nas mãos não é coisa fraca.
Pode acreditar.
E se ela estiver ouvindo Piazzolla, é pior ainda.

(Poemas de Greta Benitez. Leiam mais no blog http://gretabenitez.blog.uol.com.br/)

segunda-feira, 5 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (VIII)




O LIVRO DOS VENTOS


O mundo faz-se do olhar
espaços sugeridos pela diagonal
planos sem volume
dissolvem-se na memória

As mãos lentamente
erguem a escritura das ondas

O olhar afoga-se
por entre o anil do céu
e o musgo das árvores
compõe-se o quadro dos amantes
navega-se sobre as águas do ar
plumas semeadas de olhos

O navio alça-se pássaro
lança-se em águas etéreas
a âncora faz-se ânfora
os corpos entrelaçam-se
na trilogia do sonoro do diáfano do móbil
na ânsia do toque
os olhos
mergulha-os no aquário
com peixes vermelhos

* * *

no branco-lírio dos olhos
é noite
primavera de astros

firo os pés em estrela marinha
flor de pedra
vermelho coágulo

sangro fome de pássaros

* * *

o vento cobre o barro
o oleiro faz do vaso o vazio
opala derramada
sobre o negro dos olhos

o barro cobre o vento
o oleiro faz do vazio o vaso
a mesa outonal desfaz-se em folhas

(Poemas de Jacineide Travassos. Leia mais no blog http://aodisseiadepenelope.blogspot.com/)

sábado, 3 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (VII)


NAUTIKKON

Eu sou uma criança incorrigível: não há mais saída pra mim.

Eu creio em cavalo azul que respira música pelas narinas.

Sou anacrônico, talvez; eu creio em mulheres de vento que dançam tango rente às águas e mergulham nas águas pra colher anêmonas no fundo do mar.

É óbvio que a poesia é algo pra depois da morte física. Somos urdidos com milhões de fótons. Fóton: unidade de energia luminosa: a menor partícula possível da matéria.

Não é possível ver um fóton a olho nu; então estamos falando do invisível, que é um excesso de não ser.

O que em nós é invisível ressuscita: a música é invisível; a voz é invisível; o perfume é invisível.

A palavra, que guarda em si resquícios de um hálito, é igualmente invisível.

Niels Bohr diz textualmente: "Num pingo que faço, com a caneta, nessa folha de papel, há 10 milhões de átomos e 100 milhões de fótons".

Eu creio num fogo nas caves do pulmão; eu creio na barca da palavra, no sopro do abismo; eu creio, sim, na ressurreição, não do corpo, mas de nossa Tocata e Fuga visceral.

* * *

Sonho, ao amanhecer, já separado e longe, que estou pendurado na beira daquele terraço da Sunset Boulevard, com apenas uma das mãos, e se caio daqui, se não sei voar, mergulho nesta piscina que podia ter sido outra.

Estou condenado ao desespero – atravesso o deserto com uma pedra no bolso – arrasto encardidos pés pelas arborizadas, as ruas.

Carrego o coração vazio e uma palmeira na mente.

* * *

Coisa: aquilo que de algum modo é: assim coisa pode ser o Deus, uma linha de Paul Klee, um piano de Thelonius Monk, o areal, a xícara, o pão, o medo, o ventilador, a moeda persa, a clavícula, o aqueduto, a música de Mozart, o calabouço, o demônio, o vento, o abismo, a salgada branca espuma, o mantra, o astrolábio, o senhor Buddha. Nenhuma coisa é quando falta a palavra. Somente quando se encontra a palavra para a coisa, a coisa é coisa. Não será essa coisa, o que e como ela é, algo em nome de seu nome? Não se trata de agarrar com a palavra o que já está vigorando, nem de a palavra ser instrumento para a apresentação do que é dado. A palavra nasce no instante em que está sendo respirada: o uso é sua respiração. A coisa: o Deus, uma linha de Paul Klee, um piano de Thelonius Monk, o areal, a xícara, o pão, o medo, o ventilador, a moeda persa, a clavícula, o aqueduto, a música de Mozart, o calabouço, o demônio, o vento, o abismo, a salgada branca espuma, o mantra, o astrolábio, o senhor Buddha: só começa a respirar quando usamos a palavra. A palavra é que dá viço à coisa que, de algum modo, é. A pedra preciosa e delicada da palavra some quando a palavra falta. A palavra é um nada e esse nada é a voz do silêncio: a voz insonora. A voz do silêncio: aquilo que se ouve e não tem som. Aquilo que se ouve e não tem som, o que é? É nossa alma contruída durante o tempo: e alma é dessa matéria indizível: diamante sonoro ou perfume de mulher.

(Poemas de Fernando Karl. Leiam mais no blog http://www.nautikkon.blogspot.com/)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (VI)


NOZ-MOTIM


sapos circenses explodem na maquete citadina, muita gente assiste a morte dos anfíbios. um homem que diz ser cristo, o verdadeiro, sobe na mesa onde está a maquete e começa a latir enquanto o cheiro de enxofre sai da fumaça esverdeada. todos se dispersam com as mãos no rosto, inclusive ele, o cristo que vive no corpo daquele homem com alma canídea, atravessa a rua ao farejar um outro jesus e, mostrando-se superior na escala hierárquica da fraude, ataca, com sagrada inquietude, a face da segunda representação.

* * *

cavalos de chuva caem no mar, depois do estrondo o mar assemelha-se ao deserto. vê-se o rosto de sal e areia da mulher sem olhos, há um pensamento que compreende os efeitos da miragem. por vezes o rosto some, mas a imagem volúvel sempre retorna à memória silenciosa.


* * *

a madrugada é a continuação do primeiro caos. silício na atmosfera rompida, insolentemente, pelas estrelas. olhos rolaram pelos montes e sísifo-escaravelho-cansado não os levará de volta ao rosto. estão tateando o tempo, eventualmente prego nas mãos. o sangue que circula não é sentido com a mesma intensidade de quando escorre. numa mesa de operação ao ar livre, o nome sedado e aberto, dentro dele um rio escarlate e a inédita fúria do peixe que bate a cabeça contra as vísceras - margem do corpo.

* * *

ciclo alegórico, espelho planetário, branco portal de ativação. na lua o coelho dos ascetas respira no ritmo dos calendários maias, avista todas as construções e ruínas, dorme na cratera elevada. o sol nasce no canto do céu e logo o céu inteiro é um mar laranja, ondas nuvens, estradas rios. estamos afogados nos ecos dos nossos corpos, dos outros corpos, dos que nem sabemos a existência. conexão líquida, orgânica, perceptiva, invisível fluxo por onde tudo passa e nada se mantém intacto - do início ao fim as calopsitas atravessam os espaços, gritam alguma coisa e somem. estratégias amplificadoras de silêncios - as cascas de ovo, perfuradas, igualam-se aos abismos.


* * *

sair ao acaso é submeter-se à imprevisibilidade das circunstâncias. mas o acaso, ainda que até certo ponto, pode ser boicotado pelo modus operandi do raciocínio. as probabilidades de encontrar pessoas barulhentas em ruas silenciosas são mínimas, por isso escolher ruas silenciosas é diminuir a cota de azar do dia quando se preza o silêncio, o vazio e os espelhos que se formam por cima das poças assim que a chuva para. cães seguem precariamente iluminados, cães de rua raquíticos, sôfregos que, ao lado dos retirantes de Portinari, não destoariam, ao contrário, seriam novos elementos corroídos pela mesma insignificância que o vasto campo da desolação impõe. o sopro da morte não vem de longe, espectros em meio à travessia, por um instante, todo mundo quer morrer, ficam os que aguentam pela fé, pela loucura ou, abandonada toda a razão, sufocado todo o sentir, pelo automatismo apático da sobrevivência, quando já não há muitas escolhas a fazer. farelos, menos densos do que as cinzas da fênix. a renovação de tudo começa quando tudo acaba, o resto é gradativo como o eclipse. as horas, os minutos, os segundos, os milésimos de segundo enquanto estou, estás, estamos desenhando o círculo.

(Poemas de Camila Vardarac. Leiam mais no blog http://noz-motim.blogspot.com/)