quarta-feira, 31 de março de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (V)


O HÁBITO ESCARLATE

TABACARIA DE HIGÉIA

trago a peste para dentro do corpo
a um só gole do vinho encefálico

traga o meu olho queimado
(queimado da peste que trago)
corredor de olhos amputados

trago-te
fumaça anestesiada de dias,
teu corpo de véus em luz mortiça
nas medulas de cortiça
dos alvéolos tragados

cordões umbilicais ressecados
na lua da boca das crianças
tragando o leite ausente, falho

tudo isto caminho e trago
para dentro do olho calvo
o metálico sangue no altar de plástico
abraça a mão de morfina do sol
injetando ouro inventado
sobre a ciranda de chagas

corro com a víscera tragada
de palhas, agulhas, mortalhas
máscara de nervo sádico,
trago-te
transplantado ícone de barro

um omulu esquartejado
no peito aberto
rasgo

pudera tragar o queimado
destes minúsculos moldes enjaulados

centauro envenenado
incendiaria de fantasmas
meus dois olhos extraviados
de vez

mas há balsâmico e visionário miasma
no aroma medicinal destes tragados ventres

de tudo do pouco tragam
do circo de horror doente
um parto de esperança, na esfumaçada tez
e me tragam, o olho sadio, antes de escurecer


TAXIDERMIA

com olhos de ocelot
pinça o gato escarlate
pela digital

sonha
plenilúnio

a espinha do felino
no éter da palma
exposta

no ossário enluarado
três miados rajam
a sala cirúrgica de memórias

(Poemas de Andréia Carvalho. Leiam mais no blog http://habitoescarlate.blogspot.com/)

GALERIA: JAN SAUDEK (IV)


LOJINHA DO TURCO

Caros, em 2004 fui conselheiro editorial da Lamparina, que publicou livros de autores brasileiros contemporâneos, entre eles O Livro de Zenóbia, de Maria Esther Maciel, Pequeno Dicionário de Percevejos, de Nelson de Oliveira, A Consciência do Zero, de Frederico Barbosa, Nômada, de Rodrigo Garcia Lopes, Estranhas Experiências, de Claudio Willer, e Pegadas Noturnas, de Glauco Mattoso. É muito dificil encontrar essas obras em livrarias, mas é possível encomendá-las via internet, no site Estante Virtual, http://www.estantevirtual.com.br/.

segunda-feira, 29 de março de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (III)


CONFISSÕES INCONFESSÁVEIS

Fera Bifronte é uma metáfora da morte. Remete à imagem do cão Cérbero, que guardava a entrada do inferno, na mitologia grega (embora, no mito original, esse animal tenha três cabeças; eu reduzi para duas, talvez para introduzir um outro sentido, o da dualidade, divisão, conflito). O primeiro poema do livro chama-se Fera; o último, também (como se o livro tivesse início com uma de suas faces, e terminasse com a outra). No primeiro poema, a relação entre o animal e a morte é dada já no verso inicial: "Animal metafísico desliza aspereza até abolição de vocábulos", abolição que é o silêncio do aniquilamento. A descrição física da criatura, que salienta "fileiras assimétricas de vértebras", "Flora esquelética no pelame", explicita a imagem cadavérica; já o verso "Sequência numérica tatua seu dorso" remete à inscrição na pele dos prisioneiros dos campos de concentração (embora nesses últimos os números fossem gravados no braço, não no dorso). As imagens cruéis do poema associam-se a referências sexuais, de uma eroticidade macabra: "Em branco aniquilar / sua mandíbula / aberta como fenda sexual / interrogante". A dualidade Eros / Thanatos é um dos temas centrais do livro, e se torna mais explícita no último poema, também chamado Fera: "... que mutila ao lamber / nossos lábios. / Devassa da noite e seu dramatismo, / da noite e seus jogos / marsupiais, / faz do breu uma erótica de lâminas". Neste poema, a alegoria da morte assume outra imagem, mais carnavalizada: a cadela esquelética "exibe seus múltiplos ornatos, / ao devorar a carne / dessangrada: / pingente de ouro numa teta, / argola de prata no lábio cinzento / de harpia", é uma "bicéfala dama-dragão", "ávida por envolver-me / em lascívia". O eu lírico aparece então como o fugitivo da fábula árabe, que tenta escapar à morte, disfarçado: "Se ela vier buscar-me / neste poema, / não encontrará /a carne tensa, palatável, / apenas a efígie / de um perpétuo fugitivo". Claro que há vários outros temas ao longo do livro, desde a guerra (Escrito em Osso) até o amor (Escrito em Flor) e a sociedade de consumo (Gabinete de Curiosidades), mas é o tema da morte que aproxima esse livro de meu poema longo Letra Negra: "estou morto e não-morto / vértebras ao inverso / letras tontas / de um nome incerto / vocábulo equívoco / desfeito em água / para a necessária / abolição de mim". Nesta composição, a morte ganha outros contornos: não se trata (apenas) da pulsão tanática individual, nem da devastação coletiva, como nas guerras do Oriente Médio ou nos campos de detenção, tortura e morte, como o de Sujiatun, na China (abordado em Fera Bifronte). A morte aqui ganha uma dimensão mais ampla: ela é a constante mutação da realidade, "campo de improváveis simulando pólipos"; "aqui um camaleão se / transforma em água, em peixe, em luz, em / nada", mutação que remete à paisagem externa e à angústia individual, traduzida como acúmulo de inumeráveis mortes simbólicas.

sábado, 27 de março de 2010

GALERIA: JAN SAUDEK (II)















Caros, leiam uma resenha de meu livro Fera Bifronte em Cronópios, escrita por Susanna Busato, na página http://www.cronopios.com.br/site/resenhas.asp?id=4473. A Germina, em sua última edição, também publicou uma resenha do livro, assinada pelo poeta e crítico André Dick, em http://www.germinaliteratura.com.br/2009/livros_cinemamental_por_andredick.htm

CÂNONE E ANTICÂNONE (VIII)

Augusto dos Anjos (1884-1914), em sua estética do escárnio, cantou a demência e a nevrose, o bolo fecal e os cristais de vômito, despoetizando a poesia para mostrar a verdade da Dor. O poeta do Engenho do Pau D'arco rompeu com a falsa lírica, retórica e sentimental, dos autores de seu tempo, fazendo do humor negro, da caricatura e do sarcasmo as pedras fundamentais da construção verbal.

O Eu (1912), único livro do poeta, publicado no Rio de Janeiro graças à ajuda de seu irmão, Odilon, é um conjunto de 58 peças em que predominam formas tradicionais, como o soneto e o verso decassílabo. O ritmo, porém, não obedece sempre a esquemas regulares, binários ou ternários; o autor adotou um livre fluxo de sílabas fortes e fracas, similar à prosa.

As rimas são inusitadas nessa alucinação de timbres: o poeta combinou termos do português e do latim (teto / senectus), verbos com no-mes próprios (amá-lo / Sardanapalo), palavras quase homófonas (singre-me / íngreme), verbos com letras do alfabeto (apodrece / s). Outras particularidades da bizarra arquitetura fônica do Eu são o uso freqüente do grau superlativo nos adjetivos (singularíssima, nervosíssimo), de advérbios (proficuamente, panteisticamente), palavras com acentuação tônica (fêmea, abstêmia) e termos polissilábicos.

A insurgência sonora do Eu, que recorda os ritmos dissonantes de Cesár Vallejo em Trilce, ainda hoje causa estranhamento, pela novidade da informação estética. A força prosódica dessa lira delirante está centrada sobretudo em seu excêntrico vocabulário: o poeta paraibano incorporou termos das ciências naturais (pólipo, vibrião, monera), da filosofia (mônada, não-ser, ataraxia), do sânscrito (nirvana, samsara, Abhidarma), do grego e do latim (nous, pneuma, atrium), além de insólitos neologismos. O poeta dissecou as partículas léxicas e recombinou-as, formando termos como hoffmânicas, heliogabálica, arimânico, rembrandtescos, que recordam as invenções semânticas de Cruz e Sousa, como nirvânica, beethovínica, torcicolosamente.

O constructo sonoro de Augusto dos Anjos surpreende ainda pelo uso particular das figuras de linguagem tradicionais, como assonâncias e aliterações (“Assombrado com a minha sombra magra”, em Cismas do Destino) e anáforas: “E quando vi que aquilo vinha vindo/ Eu fui caindo como um sol caindo/ De declínio em declínio; e de declínio/ Em declínio, com a gula de uma fera,/ Quis ver o que era, e quando vi o que era/ Vi que era pó, vi que era esterquilínio” (do Poema Negro). A arte verbal do Poeta Sombrio não é melódica, cantabile, coral serafínico ou ária de harpas nivosas, mas um sherzo macabro, urdido em notas inauditas. Um bom exemplo dessa música estranha, que vai além das pautas parnaso-simbolistas e antecipa a poesia moderna é o conhecido soneto Psicologia de um Vencido:

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco,
Esse ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas com os cabelos
Na frialdade inorgânica da terra!

O Eu não se confunde com a obra dos demais poetas brasileiros de seu tempo; o único paralelo possível é com o Livro de Cesário Verde. O “Doutor Tristeza”, no entanto, foi mais ousado em sua ruptura com a aura mística do beletrismo, fazendo uso de cifras como o preço de mercadorias (“custa 1$200 ao lojista”), dados quantitativos (“Nas suas 33 vértebras”), datas (“6ª feira, 3 de maio”) e até exageros metafóricos (“Tenho 300 quilos no epigastro”). A incorporação do prosaico, da linguagem comercial, antecipa Oswald de Andrade (“1 300º à sombra dos telheiros retos”, no poema metalúrgica, em Pau-Brasil) desmascarando a falsidade de uma poesia supostamente “elevada” ou “profunda” do tipo “sorriso da sociedade”, praticada na época pelos vates de monóculo e fardão.

A harpa dissonante do poeta, porém, não tem um equivalente fanopaico. Em seus poemas, a imagética não alcança a paleta cromática de um Cruz e Sousa, de um Pedro Kilkerry, por exemplo. Augusto dos Anjos não foi hábil pintor de aquarelas semânticas, mas um artista do escarro, que fez do muco verbal a matéria-prima básica para a composição de virulentas metáforas, que têm o sabor da verde gosma da tísis (“Dissolva-se, portanto, minha vida/ Igualmente a uma célula caída/ Na aberração de um óvulo infecundo”, em Budismo Moderno; “Comi meus olhos crus no cemitério/ Numa antropofagia do faminto”, em Solilóquio de um Visionário).

Deve-se notar, no “artesanato furioso” de Augusto dos Anjos, a economia de adjetivos, a síntese e a precisão construtiva de imagens (a tesoura, o palito de fósforo), em oposição às densas brumas simbólicas e aos frisos esmaltados do Parnaso. O seu olhar é o do homem moderno, que vê a pedra na pedra e o cão no cão, antecipando o João Cabral da “faca só lâmina”. Um poema notável desse antipintor sem pincel nem cavalete é Versos Íntimos, talvez sua peça mais conhecida:

Vês? Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão — esta pantera —
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

O sentimento trágico

O poeta encontrou a sua mais perfeita forma de expressão na sátira cruel, no humor negro, cheio de angústia e desespero. Seu pessimismo, que transborda em imagens febris, não se resume, porém, a um état d'âme de autor doentio, mas é também indício da anima mundi de seu tempo, ante-sala da I Guerra Mundial. A visão do ser humano como ente degradado, movido por instintos elementares e destinado a ser alimento para os vermes prenuncia o expressionismo alemão. Anatol Rosenfeld já traçou um paralelo entre Augusto dos Anjos e poetas como Georg Trakl e Gottfried Benn, mas a originalidade do brasileiro radica em seu curioso conceptismo, que mescla o sentimento trágico ao discurso científico e filosófico da época.

O poeta do Pau D'arco foi leitor assíduo das teorias evolucionistas de Darwin, do monismo biológico de Haeckel e das doutrinas de Spencer. O saber da ciência, porém, voltado à origem, mutações e extinção das formas materiais, não resolveu a questão da Dor. E o poeta, cujo olhar estava voltado para o Sofrimento em todas suas faces prismáticas nascimento, velhice, doença e morte — foi encontrar consolação no budismo e na filosofia de Schopenhauer. O livro de Augusto dos Anjos é um diálogo com essas duas visões de mundo, culminando na certeza da aniquilação das formas e da consciência no Vazio original.

Essa visão sombria é nítida, em especial, no poema de abertura livro, Monólogo de uma Sombra (“Sou uma sombra! Venho de outras eras,/ Do cosmopolitismo das moneras.../ Pólipo de recônditas reentrâncias,/ Larva do caos telúrico, procedo/ Da escuridão do cósmico segredo,/ Da substância de todas as substâncias!”). Essa peça, dividida em 31 sextilhas, que totalizam 186 versos, é talvez a obra-prima de Augusto dos Anjos, um quadro pessoal do abandono, da miséria humana e da loucura, como a Carniça de Baudelaire, o Gato Preto de Poe e os Faróis de Cruz e Sousa.

Na poesia de Augusto dos Anjos, como notou seu amigo Órris Soares, um tema está ausente: o amor. O poeta enfoca o erotismo, desvinculado da paixão ou da ternura, marcado com o estigma do meretrício, do pecado original, talvez pela formação religiosa e pelos ressentimentos afetivos do autor. A prática da cópula, para ele, quase se confunde com o ofício da prostituta, que traz a doença, a miséria, a danação. Assim, por exemplo, no admirável soneto Depois da Orgia:

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

Augusto dos Anjos via o mundo não como um fotógrafo, mas como um cirurgião, hábil em usar o bisturi. O seu pessimismo — ou fatalismo biológico — não excluía, porém, a compaixão pelos rotos e miseráveis, como é possível notar em várias passagens de seu livro. A ética meio cristã, meio budista do poeta não era insensível à Dor; pelo contrário, ele compartilhava o Sofrimento Universal, que só terminaria com o final da existência material, com a absorção no Nirvana. Esta foi também a fé de Cruz e Sousa, seu irmão espiritual, e de quase toda a geração simbolista.

Fortuna crítica

A publicação do Eu no Rio de Janeiro, em 1912, não chamou a atenção dos críticos e literatos, acostumados a uma poesia superficial e cosmética. Nessa época, no ambiente cultural da metrópole, imperavam Olavo Bilac e Coelho Neto, aplaudidos nos saraus, confeitarias e suplementos literários. Defendia-se com ardor, nas rodas literárias, nos cafés e cinemas uma práxis poética que já havia embolorado em seu próprio berço histórico: na França, a estética parnasiana há muito fora suplantada pelo simbolismo, e, nesse momento, Apollinaire, Max Jacob, Cocteau e seus amigos preparavam-se para assinar o atestado de óbito do verso clássico francês. No Brasil, porém, o demônio do anacronismo ditava a moda, e impunha o “silêncio obsequioso”, o exílio artístico ou a difamação pública aos jovens poetas que pesquisavam novas formas estéticas.

Osório Duque Estrada escreveu, no Correio da Manhã, uma resenha sobre o Eu em que chamou o autor paraibano de “um grande talento, transviado pelo cientificismo”. Já Medeiros e Albuquerque chamou o poeta de “um ourives enlouquecido”, que teria “tomado ouro maciço e feito com ele um bloco estranho, áspero, anfratuoso, sem representar coisa alguma, tendo apenas, aqui e ali, recipientes para dejetos imundos...”. O próprio Bilac, segundo conta Francisco de Assis Barbosa, depois de ouvir Versos a um Coveiro, teria dito que o poeta “fez bem em morrer. Não se perdeu grande coisa”.

Os modernistas de 1922 também ignoraram o autor de Eu, talvez porque o considerassem um “último romântico”. Manuel Bandeira chamou-o de “poeta de soldado de polícia”, e Antonio Candido, criticou o “mau gosto” do autor de Vandalismo. Curiosamente, Augusto dos Anjos, antes de ser aceito pela crítica, tornou-se um fenômeno editorial, conquistando o gosto do público — fato insólito no Brasil — ocupando um lugar na preferência dos leitores só comparável ao de Casimiro de Abreu. Pela primeira vez, o público leitor demonstrou maior abertura para a informação nova do que a crítica especializada... Por fim, veio o reconhecimento, e um estudioso da qualidade de Otto Maria Carpeaux considerou Augusto dos Anjos o maior poeta que o Brasil já produzira até então. Hoje, o seu lugar na história de nossa poesia está acima de qualquer discussão, e é possível rastrear sua influência na obra dos novos “poetas malditos”, como Sebastião Nunes e Glauco Mattoso.

Augusto dos Anjos, o poeta esquálido, tímido e doentio, viveu em meio à penúria. Em três anos, morou em dez casas diferentes, quase sempre em quartos de pensão. Segundo Francisco de Assis Barbosa, “era total, absoluta, sua incapacidade para ganhar dinheiro”. Sobrevivendo com parcos vencimentos de professor (tentara, sem êxito, ser agente de uma companhia de seguros), a duras custas pôde manter sua esposa e filhos. Por fim, veio a falecer, aos 29 anos, vítima da pneumonia. Após sua morte, publicaram-se várias edições do Eu com acréscimos de textos inéditos, e hoje sua obra completa soma 210 poemas. Que contam muito mais, para a evolução das formas em nossa poesia, que a extensa — e dispensável — obra do outrora “príncipe dos poetas”, que é hoje uma celebridade morta. Mais vivo, mais novo, Augusto é um poeta para poetas: o Eu que fala para nós e para vocês.

GALERIA: JAN SAUDEK (I)


POEMAS DE DARIO VELLOZO

PAREDRA

Vênus pagã, olhos de sete-estrelo,
A cabeleira rútila fulgindo...
Amei-te!... amor, nos olhos teus fulgindo,
Volúpia; luz do sol de teu cabelo.

A luxúria findou. Astro maldito,
Rolei do azul aos pélagos hiantes...
Procurava a minha alma... além, distantes,
Lótus colhi nos edens do Infinito.

Morreste. Ao val da Sombra, compungido,
Boa que foras para meus delírios,
Levei teu nobre coração partido.

Só então, osculando o altar de pedra,
À luz morrente de funéreos círios,
Tua alma ouvi... - a minha Irmã, Paredra.


ATLÂNTIDA
(poema épico, fragmentos)

Do Prelúdio:

Íon, no Espaço
Poeira komica na amplidão,
-Terra!-
Num círculo de aço,
Na órbita que o Destino retraçou;
Terra de servidão!...
Terra de expiação!...
Terra de redempção!...
Dominínio de Mayá, - a encantadora,
Que vida e morte encerra,
De philtros cheia a ânfora sonora;
-TERRA!-
Um mundo para o Homem,
Cujo corpo o teu limo formou;
Um nada do Infinito;
Penumbra das almas, cuja essência
A Essência Eterna irradiou;
Caçoula em que Formas se consomem,
Quando a alma revoa,
Livre à Carne, ao Desejo, que agrilhoa!...
-Terra!


Do Canto II: O Reino de Paititi

(...)

— Tu conheces, Aztlan, a Ciência dos Magos,
Sabes a LEI, o termo a que a Razão atinge,
Os arcanos da ESTRELLA, a visão dos oragos,
A voz do Teocallis, o sigilo da Esfinge;

Sabes que o coração é o casulo da vida,
Onde murmura a alma a perene lembrança
Do passado, do além, da forma esvanecida,
De uns olhos de mulher, de um riso de criança;

Tu sabes que a MATÉRIA é maga e feiticeira,
Faz e desfaz; - é Água, é Ar, é Fogo, é Terra;
É onda que marulha, estrela condoreira,
É favônio que ameiga, é tormenta que aterra.

Eterno - o TEMPO. Os Kalpas se sucedem...
Os astros se compõem e decompõem;
Da Terra, os continentes que antecedem,
Continentes futuros pressupõem...

Algo os Antis possuem dos Lemúrios;
Mas, todo o seu saber dos Atlantes vem;
Seus costumes, ciência, aras e augúrios
Da Atlântida longínqua sobrevem.


Do Canto IV: No limiar dos Mistérios

(...)

— Mestre, inquire o Piaga, —

Se eu quisesse aprender da Atlântida a Ciência,
Onde a iria encontrar?
Poseidonis ruiu... A sombra vaga
Na memória dos homens... A demência
Do Mar afogou-a no mar!...

Nenhum vestígio!... Templos e muralhas,
Os papiros sagrados, - Runá disse, -
Perderam-se também;
Velam a terra líquida mortalhas;
Chocam-se as ondas, como quem carpisse...
E a voz dos Ecos: -Nada mais!... Ninguém...

Nos olhos do Piaga o olhar do Mago
Lento cruzou, fixou-se... Perscrutava
O pensamento íntimo que o afago
Das palavras do jovem revelava.

Intenso e terno o olhar de Aztlan,
Nostálgico e profundo,
Tons da saudade e piedade vã,
Nos ocasos de um mundo.

Nos esmaltes do olhar, de estranho magnetismo,
A renúncia da vida, o êxtase divino,
A força de atrair dos abismos do Abysmo
A vítima do Amor, o exausto Peregrino.

A renúncia da vida!...
A morte do Desejo!...
O almejo
Da grande Solitude!...
O almejo do Silêncio, o almejo imenso
De subir para DEUS numa espiral de incenso,
De encontrar no INFINITO a vereda perdida,
De imergir no NIRVANA em toda plenitude!

DEUS!
A ESSÊNCIA ETERNA, a Eviterna Substância,
UMA e infinita;
O sorriso da Infância,
O ósculo da LUZ, a asa, o adeus...
A alma que volve aos céus e nos astros palpita.

DEUS: A Causa sem Causa, o mistério da ESFINGE...

Do Canto V: Céltida Druidica

(...)

Sacrifícios humanos! Sangue a rodo,
Sangue que as Larvas bibulas absorvem,
Do alto monte de Morven
Baixando,
Tumultuando,
Negrejando
O horizonte...
Lodo!

Sacrifícios humanos!... Rubra fonte
De sortilégios e de malefícios!...
Do alto monte
Que Ossian celebrou,
A luz das madrugadas
Foge... Edifício de ossadas
Que a Morte acumulou,
Monte de sacrifícios
Onde a lâmpada antiga se esgotou.

Do Canto VI: Athene

(...)

ATHENAS!
Um prelúdio de sol na ânfora da noite...
Um prelúdio de sol!...
Prelúdio!... - Dilúculo nascente,
Áureo-purpúreo arrebol
De uma aurora que surge a aclarar o OCIDENTE!...

Ouro-carmíneo, ouro-lilás, ouro de opala,
Ouro de asas de falenas,
Íons de luz, de aroma...
Íons que exala
A Flor de Lótus da alvorada
No constelado manto de Urânia.

quinta-feira, 25 de março de 2010


Cena do filme Cruz e Sousa, o Poeta do Desterro, dirigido por Sylvio Back.

CÂNONE E ANTICÂNONE (VII)

João da Cruz e Sousa (1861-1898) é o poeta da angústia, do spleen, “fatigado do triste hospital” da existência, e também o rapsodo místico, visionário, que sonhava transcender o palco da Dor Universal pela absorção no Absoluto. O desejo de aniquilação do Poeta Negro, de retorno ao Vazio anterior à Criação, tem origem na filosofia do Romantismo alemão, em Novalis e Shopenhauer, e essa visão permaneceu, ao longo do século XIX, como o cânon ideológico do Simbolismo.

Broquéis (1893) introduziu na poesia brasileira o novo estilo. Esse livro estranho, de uma beleza nervosa, é diferente de tudo o que foi publicado antes, entre nós. Conforme José Aguinaldo Gonçalves, o poeta simbolista, “fascinado pelo mistério e pelo caráter fluídico das coisas, aprofundou o universo das sugestões, da ambiguidade, da abstração mística, do sentimento sensorial do mundo. Para isto, vai criar um universo vocabular próprio, voltado para a neblina, o onírico, o vaporizante, o lactescente, o litúrgico, o etéreo, o plangente, o soluçante, o errante, o luminoso, as brumas e o encantatório transcendente”.

O poema de abertura do volume, Antífona (“Ó Formas alvas, brancas, Formas claras/ De luares, de neves, de neblinas”) é um verdadeiro manifesto, em que o autor se volta contra a objetividade naturalista, a descrição minuciosa de detalhes, em favor de uma construção de imagens “vagas, fluidas, cristalinas”. Cruz e Sousa seguiu, em sua mirada de miragens, a pista indicada por Mallarmé: “Nomear um objeto significa eliminar três quartos do prazer de adivinhá-lo. Sugerir, eis o sonho”. Essa é uma linha paralela à técnica de acordes isolados na música de Débussy e ao pontilhismo de Pissaro e Seurat, na pintura, que prenunciavam a superação da tonalidade e do figurativismo por novos modos de composição.

Um bom exemplo dessa imagética renovada, em que fluem impressões de melancolia e sensualismo, é o poema Monja: “Nas flóridas searas ondulosas,/ cuja folhagem brilha fosforeada,/ passam sombras angélicas, nivosas,/ lua, Monja da cela constelada”. O talento plástico de Cruz e Sousa é evidente sobretudo em Missal, coletânea de poemas em prosa publicada no mesmo ano que Broquéis. Assim, na peça intitulada Navios, o poeta nos diz: “Praia clara, em faixa espelhada ao sol, de fina areia úmida e miúda de cômoro. Brancuras de luz da manhã prateiam as águas quietas, e, à tarde, coloridos vivos de ocaso as matizam de tintas rútilas, flavas, como uma palheta de íris”. Em outra peça, Bêbado, lemos: “O mar tinha uma estranha solenidade, imóvel nas suas águas, com uma larga refulgência metálica sobre o dorso. Da paz branca e luminosa da lua caía, na vastidão infinita das ondas, um silêncio impenetrável. E tudo, em torno, naquela imensidade de céu e mar, era a mudez, a solidão da lua...”

O efeito cromático é mais eficaz com o recurso de sonoridades raras, pois é a música que melhor expressa o sentimento de vago, difuso, diáfano, despertando a intuição e o sonho. Para Edgar Allan Poe, poesia é a “construção precisa do impreciso”, “criação rítmica da Beleza”, e, seguindo nessa trilha, Verlaine irá reivindicar “a música antes de tudo”. Cruz e Sousa, afinado com seus mestres espirituais, irá fazer da melopéia um dos pilares de sua filosofia da composição e o fio condutor de todas as relações sinestésicas. Em Outras Evocações, o poeta nos diz: “O estilo é o sol da escrita. Dá-lhe eterna palpitação, eterna vida. Cada palavra é como que um tecido do organismo do período. No estilo há todas as gradações de luz, toda a escala dos sons. (...) A palavra tem a sua autonomia; e é preciso uma rara percepção estética, uma nitidez visual, olfativa, palatal e acústica apuradíssima para a exatidão da cor, da forma e para a sensação do som e do sabor da palavra”.

As palavras, em sua corporalidade, e não apenas como conceitos, têm força de expressão mágica, evocatória, como notou Mallarmé; por essa razão, diz o autor de Brise Marine, o poeta deve buscar “o verso que, de diversos vocábulos, refaz uma palavra total, nova, estranha à língua e como que encantatória”. É dessa construção do estranhamento, do inusitado, que advém a experiência do êxtase estético, que Joyce chamava de epifania. Cruz e Sousa, como um taumaturgo morfológico, criou, em seu cadinho de quintessências, um novo vocabulário, mesclando termos em neologismos insólitos, tais como: absíntica, nirvânica, pantérico, tantálico, beethovínica, estradivário, torcicolosamente. Além disso, assimilou um léxico luxuoso e alucinado, com laivos gongorinos: neblinoso, alampadário, flamívona, alabastrino, espumaroso, empurpuresce. Com esse grimoire de sortilégios e encantações, Cruz e Sousa conduziu aliterações (“suspira, sofre, cisma, sente, sonha”), anagramas (“areia úmida e miúda”), paronomásias (“torvas e turvas”, “gralha, grasma e grulha”), assonâncias (“Das tuas asas serenas”), anáforas (“só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria”) e outras magias com a habilidade de um mestre consumado.

Uma descida aos Infernos

A poética de Cruz e Sousa não teve uma evolução estética linear; ela oscilou entre a abstração e a caricatura, a elipse e o discurso, a brevidade e o jorro verbal, o gosto refinado e o kitsch. De Broquéis a Faróis, o poeta mudou a sua maneira de olhar para os objetos, e o resultado é uma nova forma de fanopéia, menos etérea, mais densa. Como nos diz Roger Bastide, o poeta “tinha começado pela dissolução das formas exteriores dos objetos, diluindo-os na bruma do sonho, e termina pela volta à matéria, porém matéria sutilizada e preciosa, cintilação de cristal ou de jóia, certamente encarnação da Forma inteligível, mas encarnação em algo que nada mais tem de sensual e que nada retém do calor do concreto. Destruição das formas (no plural) nas cerrações da noite, cristalização da Forma (no singular) ou solidificação do espiritual numa geometria do translúcido, tais são, afinal, os dois grandes processos antitéticos e complementares ao mesmo tempo, que permitiram a Cruz e Sousa trazer aos homens a mensagem da sua experiência e apresentá-la em poesia de beleza única, pois que é acariciada pela asa da noite e, todavia, lampeja com todas as cintilações do diamante”.

Faróis, publicado em 1900 (edição póstuma), é um livro de imagens sombrias que têm a marca do triste fado do poeta: Cruz e Sousa, o filho de escravos, nascido na cidade de Desterro (hoje Florianópolis), sofreu o preconceito racial, a miséria e, nos seus últimos anos, a morte do pai e a loucura da esposa, Gavita. O pessimismo do autor, seu “tantalismo dantesco”, expressou-se aqui em poemas longos, narrativos, retórico-discursivos, com tinturas expressionistas que recordam por vezes a poesia de Trakl e a pintura de Munch: “Os miseráveis, os rotos/ são as flores dos esgotos./ São espetros implacáveis/ os rotos, os miseráveis”; “Coalha nos lodos abjetos/ O sangue roxo dos fetos”; e, com a terrível veemência dos freaks, dos danados: “Vermes da inveja, a lesma verde e oleosa,/ Anões da Dor torcida e cancerosa,/ Abortos de almas a sangrar na lama”.

O tom realista, sarcástico, que abusa do grotesco, aproxima-se, por vezes, do kitsch. O uso excessivo de adjetivos, por sua vez, é outro aspecto a ser observado: em Música da Morte, por exemplo, há nada menos que 20 adjetivos nos 14 versos do soneto! Faróis é um livro irregular; não tem a mesma alta qualidade de Broquéis. É o testemunho dramático dos insucessos de seu autor, mais do que ninguém, um “gauche na vida”. Deve-se destacar, no entanto, o poema de abertura, Recolta de Estrelas, dividido em dísticos de sete sílabas, em que o poeta usou nada menos que 42 rimas diferentes; o poema de construção semelhante intitulado Litania dos Pobres; Tédio, talvez seu poema mais próximo ao expressionismo; o conhecido Violões que choram; e Flores da Lua, em que há ecos distantes de Laforgue (que escreveu Fauna e Flora da Lua). Faróis, apesar dos desníveis de escritura, é um livro que merece ser lido, pois é a gênese da mórbida e bela anti-epopéia de Augusto dos Anjos.

Para Além da Dor

Em Últimos Sonetos, talvez a mais bem acabada de suas obras, o poeta, já fatigado da existência, aborda o anseio de união mística com o Absoluto, Nirvana búdico, que representa o fim do ciclo de intermináveis transmigrações. Neste livro admirável, Cruz e Sousa levou à perfeição o soneto como gênero literário, com uma precisão técnica impecável e uma pureza de expressão raramente igualadas por outros nomes da poesia de língua portuguesa.

É notável, nesta obra tão rica em oxímoros, metonímias, prosopopéias, a reconciliação do poeta com o quinhentismo camoniano e os modos do barroco, em versos como: “Almas vis, almas vãs, almas escuras”, “O infinito gemido dos gemidos” e, sobretudo, o quarteto inicial de Flor Nirvanizada: “Ó cegos corações, surdos ouvidos,/ Bocas inúteis, sem clamor, fechadas,/ Almas para os mistérios apagadas,/ Sem segredos, sem eco e sem gemidos”. Precisamos citar, também, Alucinação, soneto que é quase uma antecipação de Pessoa: “Ó solidão do Mar, ó amargor das vagas,/ Ondas em convulsões, ondas em rebeldias,/ Desespero do Mar, furiosa ventania,/ Boca em fel dos tritões engasgada de pregas”. O Poeta Negro, aqui, transcendendo as cortinas neblinadas do Simbolismo, alcançou um timbre universal.

A fortuna crítica do poeta é póstuma, mas ele foi reconhecido pelas principais vozes de nossa historiografia literária. Sílvio Romero considerou Cruz e Sousa “o melhor poeta que o Brasil tem produzido” e “o ponto culminante da lírica brasileira após quatrocentos anos de existência” (e, portanto, superior a Castro Alves, Gonçalves Dias e Olavo Bilac). Obteve o reconhecimento internacional, como demonstra o ensaio O drama de Cruz e Sousa, de Bastide, que coloca o Poeta Negro ao lado de Mallarmé e Stefan George como a tríade máxima do Simbolismo.

A poesia de Cruz e Sousa é a retorta alquímica de onde provêm as líricas saturnais de Alphonsus de Guimaraens, Pedro Kilkerry, Ernâni Rosas, Maranhão Sobrinho e Augusto dos Anjos; e está presente na primeira fase de Manuel Bandeira, no místico surrealismo de Murilo Mendes e Jorge de Lima e nas modernas experiências intersemióticas, que levaram o princípio da sinestesia, filtrado pelas teorias de Charles Peirce, aos meios eletrônicos de comunicação, como o vídeo e o computador. João da Cruz e Sousa, o poeta do Desterro, não é um esqueleto esquecido na tumba de seus ancestrais, mas um dos inventores de nossa poesia moderna.

O Assinalado

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tua alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado
De belezas eternas pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

GALERIA: CRUZ E SOUSA


quarta-feira, 24 de março de 2010

POEMAS DE CRUZ E SOUSA

DANÇA DO VENTRE

Torva, febril, torcicolosamente,
numa espiral de elétricos volteios,
na cabeça, nos olhos e nos seios
fluíam-lhe os venenos da serpente.

Ah! que agonia tenebrosa e ardente!
que convulsões, que lúbricos anseios,
quanta volúpia e quantos bamboleios,
que brusco e horrível sensualismo quente.

O ventre, em pinchos, empinava todo
como réptil abjecto sobre o lodo,
espolinhando e retorcido em fúria.

Era a dança macabra e multiforme
de um verme estranho, colossal,
enorme, do demônio sangrento da luxúria!

FLOR DO MAR

És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio
que põe rede de sonhos ao navio
e o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
as dormências nervosas e o sombrio
e torvo aspecto aterrador, bravio
das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras e rosas
surges das águas mucilaginosas
como a lua entre a névoa dos espaços...

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
auroras, virgens músicas marinhas,
acres aromas de algas e sargaços...

ANTÍFONA

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...

Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...

Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...

Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...

Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...

Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...

Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...

Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...

terça-feira, 23 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (XIV)


POEMAS DE PEDRO KILKERRY


HORAS ÍGNEAS

I
Eu sorvo o haxixe do estio...
E evolve um cheiro, bestial,
Ao solo quente, como o cio
De um chacal.

Distensas, rebrilham sobre
Um verdor, flamâncias de asa...
Circula um vapor de cobre
Os montes — de cinza e brasa.

Sombras de voz hei no ouvido
— De amores ruivos, protervos —
E anda no céu, sacudido,
Um pó vibrante de nervos.

O mar faz medo... que espanca
A redondez sensual
Da praia, como uma anca
De animal.

II
O Sol, de bárbaro, estanque,
Olho, em volúpia de cisma,
Por uma cor só do prisma,
Veleiras, as naus — de sangue...

III
Tão longe levadas, pelas
Mãos de fluido ou braços de ar!
Cinge uma flora solar
— Grandes Rainhas — as velas.

Onda por onda ébria, erguida,
As ondas — povo do mar —
Tremem, nest’hora a sangrar,
Morrem — desejos da Vida!

IV
Nem ondas de sangue... e sangue
Nem de uma nau — Morre a cisma.
Doiram-me as faces do prisma
Mulheres — flores — num mangue...


É O SILÊNCIO

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa…
Mas o sangue da luz em cada folha.
Não sei se é mesmo a minha mão que molha
A pena, ou mesmo o instinto que a tem presa.
Penso um presente, num passado. E enfolha
A natureza tua natureza.
Mas é um bulir das cousas… Comovido
Pego da pena, iludo-me que traço
A ilusão de um sentido e outro sentido.
Tão longe vai!
Tão longe se aveluda esse teu passo,
Asa que o ouvido anima…
E a câmara muda. E a sala muda, muda…
Afonamente rufa. A asa da rima
Paira-me no ar. Quedo-me como um Buda
Novo, um fantasma ao som que se aproxima.
Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima…
E abro a janela. Ainda a lua esfia
últimas notas trêmulas… O dia
Tarde florescerá pela montanha.
E ó minha amada, o sentimento é cego…
Vês? Colaboram na saudade a aranha,
Patas de um gato e as asas de um morcego.

CETÁCEO

Fuma. É cobre o zenite. E, chagosos do flanco,
Fuga e pó, são corcéis de anca na atropelada.
E tesos no horizonte, a muda cavalgada.
Coalha bebendo o azul um longo vôo branco.

Quando e quando esbagoa ao longe uma enfiada
De barcos em betume indo as proas de arranco.
Perto uma janga embala um marujo no banco
Brunindo ao sol brunido a pele atijolada.

Tine em cobre o zenite e o vento arqueja o oceano
Longo enfroca-se a vez e vez e arrufa,
Como se a asa que o roce ao côncavo de um pano.

E na verde ironia ondulosa de espelho
Úmida raiva iriando a pedraria. Bufa
O cetáceo a escorrer d'água ou do sol vermelho.

segunda-feira, 22 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (XIII)


POEMAS DE MARANHÃO SOBRINHO

INTERLUNAR

Entre nuvens cruéis de púrpura e gerânio,
rubro como, de sangue, um hoplita messênio
o Sol, vencido, desce o planalto de urânio
do ocaso, na mudez de uni recolhido essênio...

Veloz como um corcel, voando num mito hircânio,
tremente, esvai-se a luz no leve oxigênio
da tarde, que me evoca os olhos de Estefânio
Mallarmé, sob a unção da tristeza e do gênio!

O ônix das sombras cresce ao trágico declínio
do dia em que, a lembrar piratas do mar Jônio,
põe, no ocaso, clarões vermelhos de assassínio...

Vem a noite e, lembrando os Montes do Infortúnio,
vara o estranho solar da Morte e do Demônio
com as torres medievais as sombras do Interlúnio...


SATÃ

Nas margens de cristal do Danúbio do sonho,
cromadas de rubis, de pérolas purpúreas,
vê-se o imenso solar sonolento e medonho
do dragão infernal das Princesas espúrias...

Guarda o nobre portal de alabastro tristonho
desse antigo solar, de malditas luxúrias,
em que fulge o brasão heráldico do sonho
não sei quantas legiões de duendes e fúrias!

Sobre o mármore azul das colunas austeras,
que, em noivados de luz, o luar engrinalda
brilha o vivo cristal de alígeras quimeras...

Velam desse dragão o oriental tesoiro,
sobre um trono de rei, de maciça esmeralda,
dois soberbos leões, de grandes patas de oiro...


EQUATORIAL

Bóiam verdes lodões no lago quieto em frissos
de topázio. Flechando as ralas talagarças
dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços
dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.

Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços
soberbos, o esplendor das aquáticas sarças
beira o líquido espelho em que, de espantadiços
olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.

Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos
de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes
de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.

E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,
rojando-se em espirais de gelatina, enormes
arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...