domingo, 21 de março de 2010

POEMAS DE ERNÂNI ROSAS


O SONHO-INTERIOR

O Sonho-Interior que renasceste
era o Poema dum Lírio do Deserto,
o vinho de Outras-Almas que bebeste
fatalizou o meu destino incerto...

Depois por Ti em Sombras de degredo
encerrei a minha alma desolada,
tive a tua visão crepusculada
na Beleza fugaz do meu segredo...

Perdeu-se-me ao Sol-Pôr teu rastro amado!
qual Cipreste, no Poente agonizado,
— na demência autunal duma Alameda...

Velaram-se Sudários teus Espelhos...
ante o cerrar do teu Olhar de seda,
que era um descer de lua em cedros velhos.


ALUCINA-TE A COR

Alucina-te a cor e a calmaria
desse oceano fulgente em que demoras
o olhar em sonho a germinar auroras...
entre a quimera e a líquida ardentia...

Pareces caminhar magnetizada,
sob um chover de estrelas e de rosas...
pelo florir da Luz quimerizada
surges de um mar de nuances misteriosas...

Como ilha d'aromas e de gases,
esparsa, no silêncio, que desperta...
o lírio de teu gesto, entre lilases!

Acenando do azul do meu assomo...
ou d'aérea visão que à luz deserta,
ao mágico poder que vem dum gnomo!...


SOMBRA IDÍLICA

I

Amplo mistério, abraça meu segredo,
floresce num delírio de inconsciente
e a alma, que envelheceu pelo degredo,
alheia-se a sonhar convalescente.

Para mim, tudo num Luar se estagnou,
como um adeus de cinza esmorecendo
em tarde que minh'alma se evolou...
num crepúsculo em seda amortecendo.

A luz é uma ante-sombra, pela tarde
na envolvência dum sonho de acordar...
embolada na voz que se oira e arde...

Ó Alma, que és sol pálido de Lua!
sou o idílico irmão do teu cismar...
que é meu rastro de branca Ofélia nua.

II

Ó Ninfas ao Luar da noite ainda
abraçando a ansiedade da minh'alma...
idílica e lunar, que em flor se alinda
no abismo d'água clara da voss'alma...

A hora trespassando antiguidade,
faz-se ausência, etereal melancolia...
canção d'aroma as formas da saudade
que passa lenta como a luz do dia...

Inquietação de tarde sibilina
acorda-te, ó Luar adolescente...
pela noite imperial da minha sina!

Adormeci... pela manhã amiga
despertei sombra vã de antigamente,
vi-me passar no Espelho d'hora antiga...

sábado, 20 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (XI)


CÂNONE E ANTICÂNONE (VI)


A temática cotidiana e a linguagem coloquial podem ser recursos criativos interessantes quando utilizados com inteligência poética. É o caso, por exemplo, do poeta português Cesário Verde (1855-1886), sobre quem publiquei um ensaio, intitulado Cesário Verde: o anjo torto de Lisboa, no Suplemento Literário de Minas Gerais, em 1998. Confiram o texto, abaixo:

Cesário Verde é o poeta anti-épico, exilado da metafísica, que preferiu o sórdido ao sublime, o escarro da tísica ao mole canto querubínico. Diferente de Fernando Pessoa, não sentiu a nostalgia pelo passado aventuroso, das conquistas além-mar, nem o anseio de alcançar a paz na espiritualidade ascética; o seu mundo é o das coisas densas, palpáveis, apreensíveis pelos cinco sentidos. É o mundo racionalizado, sem mistérios, decodificado pela ciência divorciada do sagrado. É nesse espaço-tempo finissecular em que imperam o capital e a técnica, as equações e réguas de cálculo, incapazes de compaixão, que ele modelou sua poesia rigorosa, de extrema precisão vocabular, despida de sentimentalismo ou exageros retóricos. O seu cancioneiro, de lírica áspera e cortante, é o epitáfio do século XIX e a ponta-de-lança da poesia moderna em língua portuguesa.

A arte poética de Cesário Verde está alicerçada na sólida construção métrica dos versos, em que predominam o decassílabo e o alexandrino; no ritmo fluente; na escolha de rimas raras, imprevistas; na invenção metafórica; e numa ordem sintática regular, por vezes próxima à da prosa. Porém, essa forma tradicional é abalada por dentro, numa irrupção clandestina, pelo uso da ironia e do sarcasmo; pela mescla, em seu vocabulário, de palavras cultas e coloquialismos; pela incorporação do grotesco, do “mau gosto”, pour épater le bourgeois; e, sobretudo, pela orquestração dos versos, repletos de sutilezas musicais. Cesário Verde não ignorava o cromatismo, tecendo riquíssimas partituras verbais. É notável, em sua poesia, a influência das duas vertentes do simbolismo francês: a “sério-estética”, de Verlaine e Mallarmé, e a “coloquial-irônica”, de Laforgue e Corbière. Porém, ele não se confunde com os poètes maudits parisienses por seu estilo pessoal, inconfundível, e pela direção de seu olhar, voltado mais às ações humanas do que a vagas sensações.

Cesário Verde é contemporâneo do processo de transformação de Portugal, com o surto industrial e a expansão urbana, no final do século XIX, e sua poesia reflete essa mudança de paisagem, incorporando a temática social com o enfoque crítico do carbonário, do tribuno da plebe. Ele é o poeta dos operários, das lavadeiras, dos mendigos que tropeçam na sarjeta ante a marcha acelerada do veículo de um magistrado. No entanto, o seu engajamento, sua ética de solidariedade, nunca prescindiu do compromisso estético, numa linha paralela às concepções de Maiakóvski. O poeta português antecipou a própria irreverência futurista do anárquico vate russo em versos como estes: “descobria uma cabeça numa melancia/ e nuns repolhos seios injetados” (de Num bairro moderno) e “Eu desfaria o Sol como desfaço/ as bolas de sabão das criancinhas” (de Arrojos). Herdeiro de uma orgulhosa tradição nacional, a dos argonautas lusitanos, como Vasco da Gama, o poeta não poupou de sua língua ferina nem o próprio oceano: “Eu temo muito o mar, o mar enorme,/ Solene, enraivecido, turbulento,/ Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;/ O mar sublime, o mar que nunca dorme./ (...) Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,/ Escarro, com desdém, no grande mar!” (de Heroísmos).

A rima, na poesia de Cesário Verde, nunca é banal, rotineira, mas incisiva, contundente; ele obtém efeitos de ironia, de sensualidade, de comoção, dentro de sutis jogos metalinguísticos. Em sua oficina, o poeta obtém rimas entre nomes próprios e substantivos comuns (Marta/carta); entre palavras do idioma português e estrangeirismos (contrarie/coterie); entre termos científicos e do léxico comum (aneurisma/abisma); entre vocábulos de diferentes números de sílabas (relógio/martirológio), isso para ficarmos em poucos exemplos. O uso de adjetivos justapostos, em seus poemas, não é acessório, cosmético, mas, na maioria das vezes, cumpre uma função crítica, de caricatura, via linguagem, como em Ecos de Realismo — Manias:

O mundo é uma velha cena ensangüentada,
Coberta de remendos, picaresca;
A vida é chula farsa assobiada,
Ou selvagem tragédia romanesca.

Eu sei um bom rapaz, — hoje uma ossada —,
Que amava certa dama pedantesca,
Perversíssima, esquálida e chagada,
Mas cheia de jactância quixotesca.

Aos domingos a déia, já rugosa,
Concedia-lhe o braço, com preguiça,
E o dengue, em atitude receosa.

Na sujeição canina mais submissa
Levava na tremente mão nervosa
O livro com que a amante ia ouvir missa!

O pessimismo de Cesário Verde, que encontra sua força de expressão no humor negro, nos cromos metafóricos, no grau superlativo dos adjetivos, recorda o état d'âme e o estilo analítico-cirúrgico do brasileiro Augusto dos Anjos. A visada crítica do poeta português, porém, martelo nietzscheano para golpear todos os valores, é ditada menos pelo tédio, pelo spleen do estar no mundo que por um sentimento de asco ante a degradação social e de espírito.

Perfis do eterno feminino

Em sua poesia amorosa, porém, o bardo inconformista faz-se cantor romântico, blues singer da última flor do lácio, em versos como: “Pudesse eu ser o lenço de Bruxelas/ Em que ela esconde as lágrimas singelas” e “Pudesse eu ser a Lua, a Lua terna,/ E faria que a noite fosse eterna” (de Responso). No mesmo poema, o autor define sua amada na melhor tradição byroniana: “É loura como as doces escocesas,/ Duma beleza ideal, quase indecisa,/ Circunda-se de luto e tristezas/ E excede a melancólica Artemisa”. E conclui, na última estrofe: “Uníssemos, nós dois, as nossas covas,/ Ó doce castelã das minhas trovas!”. Esta associação da mulher sonhada com a noite, a melancolia e a morte encontra-se em autores do primeiro Romantismo, nas heroínas pálidas de Poe, nas damas dramáticas de romances sentimentais e óperas de boulevard. A lírica de Cesário Verde, no entanto, revela outros perfis do eterno feminino: o arquétipo da mulher pura, sincera, apaixonada, que o poeta deve proteger com ternura, e sua contraparte, a imagem de Lilith-Astarté, de uma Madalena lúbrica e impenitente, que nele desperta ao mesmo tempo o sentimento erótico, o desprezo e, sobretudo, o medo. Diz o autor, em A Forca: “Ó áridas Messalinas/ não entreis no santuário,/ transformareis em ruínas/ o meu imenso sacrário!/ Oh! A deusa das doçuras,/ a mulher! eu a contemplo!/ Vós tendes almas impuras,/ não me profaneis o templo!”. Curiosamente, na temática erótica, ressurgem, na poesia do rapsodo anticlerical, símbolos e referências do catolicismo, a condenar aos círculos infernais a mulher-só-carne. Em outro poema, Lúbrica, o poeta entrega os pontos, e deixa-se enfeitiçar pelas investidas da amiga luxuriosa:

Mandaste-me dizer
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cena de rapazes.

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

(...)

As grandes comoções
Tu neles, sempre, espelhas
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

O poeta dissidente

O poeta moderno, despido de aura, encharcado pela lama e entregue às vicissitudes da sociedade de consumo é um tema que já aparece em Baudelaire, inspirando a reflexão crítica de Walther Benjamin. Para Cesário Verde, na civilização burguesa, o artista é o dissidente rebelionário, rejeitado pelo mundo que rejeita, sendo natural a solidariedade por todos os oprimidos, pelos humilhados, que, acreditava-se, um dia fariam a revolução. No poema Contrariedades, ele nos diz:

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Neste poema, o autor compara a situação dos excluídos, dos miseráveis, à do poeta, também ele um marginal, um anjo torto, gauche na vida. Aqui, ele utiliza técnicas de corte de cena e de montagem que recordam a linguagem do cinema e das histórias em quadrinhos. A narrativa é dinâmica, com planos sucessivos de imagens, e a fala do poeta, direta, enfática, coloquial, reforça o efeito comunicativo do poema. Mais adiante, o autor diz:

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convém, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos.

E a tísica? Fechada e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Não se pode olvidar que o poeta é contemporâneo do realismo e do naturalismo, correntes estéticas que buscavam conciliar o humanismo e a defesa de valores democráticos a uma visão mecanicista, cientificista de mundo, cuja expressão teórica foi Taine. E Cesário Verde, como um pintor naturalista, nos mostra “cidades fabris, industriais,/ De nevoeiros, poeiradas de hulha” e “condados mineiros! Extensões/ Carboníferas! Fundas galerias!/ Fábricas a vapor! Cutelarias!/ E mecânicas, tristes fiações!” (de Nós).

O poema que melhor expressa o pacto de Cesário Verde em retratar a verdade, sem maquilagem, é O Sentimento dum Ocidental A peça, dividida em quatro partes (I - “Ave-Maria”; II - “Noite Fechada”; III - “Ao Gás”; IV - “Horas Mortas”) foi publicada pela primeira vez em 1880, numa edição comemorativa do Jornal de Viagens, que homenageava Camões. Este é o poema de ambiente mais urbano, mais moderno, do poeta; por ele trafegam dentistas e carpinteiros, operários e floristas, carros de aluguel e navios mercantes, numa paisagem de edifícios e vias-férreas, hospitais, cadeias e praças. É uma elegia às ruas de Lisboa, essa Londres em caricatura, emulsão de capitalismo tardio e cristandade, que o poeta retratou com as verdes tintas do sarcasmo. Logo na primeira parte do poema, o autor nos dá um exemplo de sua fanopéia concisa, fragmentária: “O céu parece baixo e de neblina/ O gás extravasado enjoa-me, perturba;/ E os edifícios, com as chaminés, e a turba/ Toldam-se duma cor monótona e londrina”.

O poema recorda, por vezes, os cenários dos romances de Zola e das crônicas de jornal; mas a síntese verbal, a linguagem dinâmica, substantiva, as metáforas ferinas, os efeitos sonoros e construções insólitas (“E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,/ Amareladamente...”) revelam o artesão apurado, mestre em sua arte, feiticeiro da orquestração das palavras. O Sentimento dum Ocidental é o documento doloroso de uma época da cultura européia, a do desenvolvimento fabril, com o inevitável custo social em miséria e sofrimento; este é o cântico noturno da gênese do século XX.

Cesário Verde faleceu em 1886, em Lisboa, aos 31 anos, vítima de tuberculose. Seus poemas, reunidos postumamente, foram publicados por seu amigo Silva Pinto sob o título de O Livro de Cesário Verde. Essa edição, no entanto, sofreu a ação de rapinagem do editor-censor, que excluiu muitas peças do volume, considerando-as “imorais”. Em edições seguintes, entre 1901 e 1926, os poemas excluídos foram sendo descobertos e publicados, até a versão definitiva, de Joel Serra, que conta 41 poemas. A influência do irrequieto poeta sobre a moderna poesia de língua portuguesa pode ser avaliada pelos nomes de Fernando Pessoa, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. Sua arte insurrecta, cutelo e forja, à margem de florilégios e perfumarias, não é só o espelho de uma época, mas o estandarte veemente da poesia que recusa ser mercadoria, aríete ideológico do conformismo ou deleite de salões ociosos. É a poesia que se afirma como o ofício do imprevisto, do lugar-incomum, da insubordinação.

sexta-feira, 19 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (X)


POEMAS INÉDITOS DE FLÁVIA ROCHA


TANKA
Dez mil folhas



I.

Nas noites quentes
adulterar as formas
e as texturas,
esquecer atrás de si
as reminiscências.


II.

Ir para longe
dos quartos sob a lua,
e se extraviar
entre as coisas leves
e sem indiferença.


III.

As dez mil folhas
espalhadas pelo chão,
nunca escondem
passos que se afastam
da estrada possível.


GHAZAL

Expressão impassível no rosto sem nome:
a memória, sem itinerário, falseia um nome.

Pretensão é querer descobrir o homem
obscuro e sincero por trás do seu nome.

Ele se concilia com tudo que consome,
e descortina a primeira camada do nome.

As marcas agora visíveis comovem:
não basta quebrar mitos em Seu nome.

O divino devora a matéria da fome
e não fixa a vibração sutil do nome.

A fome persiste sobre as camadas e move
no rosto um sinal de luta por um nome.

Mais fundo, pouco resta que console:
a entrega é falha sem a alquimia do nome.

O tempo passa sem deixar que se molde
na memória uma imagem perfeita do nome.

Faço minha a procura convicta do homem
por um rosto seu – empresto-lhe meu nome.

quinta-feira, 18 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (IX)


UM POEMA INÉDITO DE WILSON BUENO

28

Cai-me ao colo Amor de súbito
Um susto, um esgar, um bramido.
Estertor de tudo – desamor Amor ao avesso?
Quero-vos lúmpen, maltrapilha, campesina
Quero-vos riacho e manso açude.
Amor, entanto, vocifera pontiagudo
Mural de rochas e lascas e espelhos e cardumes
A fingir do Amor – casta figura? –
O Desamor em pêlo, às turras,
Aos vozeios, facas, murros, unhas
A alvoroçar o silêncio de agulhas.

(Do livro inédito 35 Poemas de Amor.)

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (IX)


POEMAS INÉDITOS DE MICHELINY VERUNSCHK

Uivo
uma dor perdida
e latejo
num vasto espaço
que a cartografia da noite
diz ser a região dos silêncios.

Uivo.

Neblina.

* * *

Amor é morte
carta violada
que sangra aberta
todos os degredos
túmulo rasgado
entre véu e selos
leitura suicida
e assassinada.

Amor é morte
carta extraviada.

* * *

O sol
devolve
cada coisa
que a noite
furtou
com sua língua de gata.
E tudo retorna
ao seu lugar usual.

No entanto,
nem tudo se recupera:
o jardim de feras em chamas que há nos sonhos,
e entre o Abismo e o Unicórnio,
Eurídice,
o meu olho cego.

(Do livro A Cartografia da Noite, a sair em breve.)

quarta-feira, 17 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (IX)


NOVOS POETAS (IV): LUIZ ARISTON

TENTANDO JOÃO CABRAL
a Jussara Silveira

1. As gentes têm por invisível
comum, senão seu próprio vício,

haver, suas próprias, as artes
ou ser o próprio malas-artes,

que mesmo o canto, por exemplo,
escultura, vem de entre os dentes,

ao ouvido, é bem mais frágil
que o invisível vidro ao tato.

2. O sem-porquê do compromisso
relativo ao valor do ofício

mostra-se mais, mostra-se noite,
quando um suposto ouvinte afoito,

diante do quebra-cabeça,
elege, feito cabra-cega,

em meio a seus pedaços todos,
o menos importante: o autógrafo.

3. Até se expor (e dar nas vistas?)
autografar-se alienígena,

recanto de um canto em um outro,
transplante de um obscuro órgão

de si para si, mas via alguém,
quesito e réplica através.

Anzol em peixe, aquele canto;
este, uma espinha na garganta.

***

se for aquilo que se foi que volta
ao paraíso o pecador que torna
em torno desse próprio posto à prova
sentir o sabor de outra boca à boca
é outro o velho gosto que se arrota
sentir o sabor de outra boca à boca
em torno desse próprio posto à prova
ao paraíso o pecador que torna
se for aquilo que se foi que volta


A LUA EM DÉBORA

A lua, quando a lua indo embora,
Manhã, que se dilua toda luz,
Despede-se, despindo-se da luz,
Por dentro está mais nua que por fora.

A lua e outra lua, dentro e fora,
Oferta-se perfeita, sua esfera,
Em duas, ao desejo em outra esfera,
Olhar que se dilua dentro e fora.

A lua, dentro, quando a lua, fora,
Estreita o tempo e sobre o tempo o torna,
Entranha o dentro ao dentro e o tempo torna
Vertigem na vertigem da demora.

Pois quando a lua, quando se demora
E assim delude a luz e a terra opaca,
Persiste em lua ainda mais opaca,
A lua que debruça da memória.

terça-feira, 16 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (VIII)


CÃNONE E ANTICÂNONE (V)

Ferreira Gullar, em crônica publicada no dia 07 de março na Folha Ilustrada, escreve: “A grande arte inventa o real, subverte-o, enriquece-o, mesmo quando se trata de realistas como Corot ou Coubert. Digo que a arte existe porque a realidade é pouca, não nos basta. (...) A tendência realista foi consequência da substituição da visão religiosa pela concepção científica e do desenvolvimento industrial. (...) Os estetas e teóricos da arte, como os artistas, sempre entenderam que arte e realidade são coisas distintas, pelo fato mesmo de que a arte-pintura, sendo um modo de expressão, não tem a materialidade das coisas reais. Ao substituir as significações simbólicas pela exposição pura e simples dos fenômenos reais, abre-se mão da capacidade humana de criar um universo imaginário que, durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais, distintos dos demais seres vivos que, estes, sim, limitam-se à experiência do mundo material”. Estas observações foram feitas pelo poeta maranhense a respeito das artes plásticas, mas, a nosso ver, são pertinentes a todas as formas de expressão artística, especialmente a poesia, ainda que ela trabalhe com palavras e não com cores, linhas e volumes.

Uma conquista da modernidade, em oposição à tradição clássica, foi justamente a de afirmar a autonomia da arte em relação ao real; não se trata mais de retratar o mundo, e sim de criar um mundo com as palavras. O próprio poema é uma realidade autônoma, um pequeno universo, “com sua própria fauna e flora”, como dizia o poeta chileno Vicente Huidobro. O poema é concebido pela modernidade como uma estrutura em que as relações entre as palavras, os efeitos sonoros e visuais, a semântica, a invenção sintática e metafórica, enfim, a função poética (Jakobson) se afirma, deixando em segundo plano a mera apresentação de uma idéia de mundo.

É claro que em autores como Maiakovski, Brecht ou Carlos Drummond de Andrade (Rosa do Povo) há um sentido referencial crítico, de violenta contestação social, mas este sentido é integrado à composição, é inseparável do jogo formal que define a poesia como poesia, e a distingue de uma crônica, um artigo acadêmico ou um texto de política ou sociologia. Não é o conteúdo de um poema de Drummond que o torna válido, mas a maneira como ele se relaciona com a arquitetura verbal. Esta longa introdução quer apenas situar as referências teóricas utilizadas para a leitura comparativa de dois poetas brasileiros contemporâneos, que publicaram os seus primeiros livros na década de 1990: Fábio Weintraub e Antonio Risério.

No livro Literatura Brasileira Hoje (São Paulo: Publifolha, 2004), o crítico da Folha de S. Paulo Manuel da Costa Pinto afirma o seguinte sobre a poesia de Fábio Weintraub, a quem é dedicado todo um capítulo: “Os dois traços marcantes da poesia de Fábio Weintraub são a crítica da realidade social brasileira e a atitude de dar voz ao outro, com poemas que narram uma situação em que irrompem falas dos ‘personagens’. (...) Os dramas urbanos de Weintraub parecem extraídos de manchetes de jornal; seus poemas trazem o protesto da viúva no velório (...) ou o desespero do morador de rua”. Estes comentários fazem referência ao livro Novo Endereço, de Fábio Weintraub, que recebeu dois prêmios literários, o da Funalfa e o Casa de las Américas, e obteve resenhas em jornais diários, como a Folha de S. Paulo, e sites de literatura. O autor colaborou nas revistas CULT e Inimigo Rumor. Vamos agora ler um dos poemas do livro:


BARRABÁS

Vocês não podem velar
o corpo do meu marido
ao lado do desse aí
que a polícia acertou

Vocês me desculpem
imagino o sofrimento
perder um filho assim moço

Meu Cícero
morreu trabalhando
Um tiro pelas costas
às duas da manhã
Ao lado desse aí
o corpo dele não vai gelar

Não adianta insistir
ao lado de bandido
meu marido não fica

(Novo endereço. São Paulo: Nankin Editorial, 2002.)

O poema é construído como um monólogo em que uma personagem sem nome, a Viúva, faz a narrativa de um caso de violência urbana. O vocabulário é simples, mimetizando a possível fala de uma mulher de condição social desfavorecida. Não há estrutura métrica ou rimas; o poema é construído em versos livres, curtos e coloquiais, sem nenhum artifício de linguagem, como metáforas ou metonímias. O autor não busca uma construção rítmico-melódica, nem apresentar imagens verbais de qualquer tipo. É uma antipoesia de crítica social que funcionaria de modo mais eficaz, talvez, no espaço do teatro, ainda que falte ação dramática à cena, que é estática. Como texto literário, não tem força de impacto, inclusive do ponto de vista emocional, pela aproximação com o melodrama. Ele se justifica, ou quer se justificar, pela realidade que retrata nos bastidores da cena, pelo “conteúdo”, mas não se sustenta, ao nosso ver, como construção textual, pela ausência de uma arquitetura poética, enfim, de um universo semântico próprio. Como escreveu certa vez Ana Hatherly, a poesia não busca retratar o mundo, e sim “acrescentar mundos ao mundo”.

Já o poeta e antropólogo baiano Antonio Risério, em seu livro Brasibraseiro (São Paulo: Landy Editora, 2004. Prêmio Jabuti), escrito em parceria com Frederico Barbosa, faz um amplo painel da cultura brasileira, registrando desde a presença da tradição poética oral africana (Oriki p/ Oiá-Iansã, Obô Mejá) até o diálogo com a poesia arcadista de Claudio Manuel da Costa, ao mesmo tempo em que faz reflexões sobre o próprio conceito de nacionalidade e os conflitos sociais da realidade brasileira, mas sempre investindo na interação do sentido com a elaboração poética de cada texto, como nesta peça, que vamos ler agora:


STRASSENKINDER

crianças que miram espelhos
e giram as caras cansadas
onde narciso não é conselho
nem comboio acha a estrada

crianças de poucos pentelhos
de rubras roupas rasgadas
entre guinchos gosmas e relhos
orgasmos de putos no ralo

crianças de coxas vermelhas
no beco das bocas usadas
moeda e moenda dos grelos
nas fodas das doidas danadas

crianças que masturbam velhos
e chupam xotas grisalhas
lambendo o sangue dos medos
nos dedos grudando de gala

*

sob a navalha da ira
o sol se descola sagrado
que a vida por mais que me fira
não me verá conformado


O poema de Antonio Risério, ao contrário daquele de Fábio Weintraub, não imita a fala de um Outro, mas é dito em primeira pessoa: é o poeta que articula o discurso, com a sua própria dicção, sem fingir um timbre estranho ao seu. Podemos recordar aqui, novamente, das concepções de Jakobson, para quem, conforme diz Terry Eagleton, “A literatura transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana”, que estaria desgastada pelo uso ordinário. Por isso mesmo, Jakobson reivindica a “violência organizada contra a fala comum”, para que o texto poético tenha mais força de impacto. Eagleton acrescenta ainda: “À crítica caberia dissociar arte e mistério e preocupar-se com a maneira pela qual os textos literários funcionavam na prática: a literatura não era uma pseudo-religião, ou psicologia, ou sociologia, mas uma organização particular da linguagem” (in Teoria da Literatura, Uma Introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2006).

O poema de Antonio Risério tem uma construção deliberadamente “artificial”: é construído em cinco quartetos, sem métrica fixa mas com uso de rimas; há o emprego visível de assonâncias e aliterações, de trocadilhos e metonímias, com imagens fragmentadas e concisas de alta expressividade, como closes cinematográficos, mas, ao mesmo tempo, a linguagem coloquial é incorporada a essa estrutura, com o recurso à gíria e ao palavrão, e desse choque entre a norma culta e a fala chula, o cerebral e o espontâneo, o eu que fala do mundo e o eu que cria um mundo, surge um texto poético muito mais violento, forte e eficaz, inclusive do ponto de vista do sentido, que não é oculto, mas explicitado (“que a vida por mais que me fira / não me verá conformado”). Não há conflito entre engenhosidade formal e sentido, mas sim a habilidade do poeta (ou a falta dela) para estabelecer uma unidade de efeito entre forma e fundo, de modo a causar impacto no leitor. Sem essa habilidade, a função poética se perde em mero registro de informações já bem conhecidas pela leitura dos jornais, sem acréscimo de informação nova.

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (VII)



















Caros, eu ainda estou sem tempo para continuar a série Cânone e Anticânone, devido ao excesso de trabalho; enquanto isso, postarei aqui poemas de autores jovens. Tão logo consiga horas livres, voltarei à série sobre o cânone e a crítica literária, que acho de extrema urgência. Em tempo: não responderei aos ataques pessoais grosseiros de certos autores rumorosos, prefiro discutir critérios de escolha estética com base em argumentação teórica e análise comparativa de poemas; método poundiano, crítica via comparação. Conversa inteligente com pessoas inteligentes, não Modos de Usar o marketing e a mídia.

NOVOS POETAS (III): ANDRÉIA CARVALHO

uma única vez
acordaram-me de um sono de feras

via através
de um rasgo
no olho orquidário do planeta

vi-me fora das grades
internas
diria metamorfose

mas não puderam conter-me fora
abrasivo, lunático de lucidez
quebrava o sedimento do caminho

deitaram-me entre alfazemas
devonianas
desfizeram correntes imaginárias

mas não puderam sustentar-se
com a serenidade de escarpa
nem com as monções, nem com as siestas

acossado de mim
digeri a planície do poente
e grãos de lótus devolveram-me ao centro

não puderam manter-me externo
pois era dentro
onde estava
o que sondei além
o que lançou-me de vós

agora, orbito semi-desperto
com o olfato domado por
cílios que chovem hibiscos

(14/03/10)

* * *

a passagem do fogo nos feriu
com o corpo de água salamandra

mas não te relego o rosto
ao apagado da caixa de memórias

deixo-te assim:
escapulário e camafeu
soando artesanato
em fechadura destravada
de medalha antiga

gravura que não devora
o pulso que a decora
e
pulsa pulsa pulsa
asa
fecha e abre
e sela
o dadaísmo das manhãs
que ainda não se fartaram
de esculpir o cadáver esquisito
da noite

(05/03/10)


(Leia mais poemas da Andréia no blog O Hábito Escarlate, http://habitoescarlate.blogspot.com/)

segunda-feira, 15 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (VI)


NOVOS POETAS (II): FABRÍCIO CLEMENTE

CONVALESCÊNCIA

O céu se esfarinha como as asas dos lençóis

Estamos destilando desde as docas do desejo

Um berro de alumínio Um leque de luas lapidado

Estamos conspirando contra cornucópias de colírios

E tomates de insulto em lepra flamejando

Nas horas de angústia contra os corredores

Desfiam-se os coices de outra alma morta

Tênis da primavera em janela de hospital

Aceno sanguíneo

Aceno sanguíneo

Ave de rapina

Cavalo Rosácea

Cavalo Rosácea

Pirata possesso

Ave-estilingue no brilho da manhã

Ave desavisada

Ave cansada

Vício vigor

Ave de lava

Com gládio de glande na gleba sem glosa

Os dias num carrinho de mão imantado de máscaras

Róseo resultado desta equação

Os dias, coração de acasos, culminando em lupa

Por sobre estes pomares de vísceras acesas

A casa porta e coronária

Rebocada

Pelo cuspe do colibri


OLHO AMADO

Agora, para manter-me no mundo será preciso assumir a sanha surda da soberba, o riso; escárnio assírio do palhaço sob a vertigem-guilhotina. Vejo os dias escorrerem pelo vão da janela, fechada, sobre a minha sugestão de alma, e as promessas assistem armários prenhes de pesadelo. Há sombras à espreita nos castelos que jazem latejando sobre os furúnculos da Terra-Mãe. Estou cansado, porém, somente persistindo na masturbação poderei alcançar tua imagem de atlas túrgido consubstanciando-me no sangue que tuas garras arrancaram do cetim que agasalha o planeta. Os arbustos, espiões do terremoto, confinam e confidenciam que há corvos coroando querubins enquanto a espada divina sai surtando numa busca galopante de gafanhotos rumo às têmporas do meu tempo.
(Confiram mais poemas de Fabrício Clemente na Zunái.)

domingo, 14 de março de 2010

GALERIA: MANUEL ÁLVARES BRAVO (V)


NOVOS POETAS (I): ARIANE ALVES DOS SANTOS

SEM TÍTULO

Meu único desejo:
Adormecer nesse retrato

Não ser mais as cinzas
que encerram
a ressonância dos pulmões

Seus braços convulsos estendidos sobre a mesa
contém o incêndio de cada minuto
As facas se voltam contra o sol
Anulando os meandros da face

O corpo
se tornará abrigo dos cinco elementos
Os vestidos
se diluirão nas nuvens
A chuva
será tua transpiração

O peito se retorce em tua única afirmação:
Falar
é entregar as armas ao assassino

Sem saber que o silêncio parte minhas vértebras
ao meio.


SEM TÍTULO

O pulso torna-se metal

Sinto
as horas pesadas como teu braço
dependurado na cama
Teus olhos desfeitos em ar

Uma locomotiva febril percorre minha espinha
Mastigo os anéis do dia
E uma ferida floresce entre os dedos.

Sou um naufrago enclausurado num seixo
roçando a palidez contra os joelhos
Incendiando as artérias do universo

Arando as cinzas de uma ave esfacelada.


SEM TÍTULO

Interrogo a farpa
cravada na memória
ao cristal que aponta
para os destroços

Um eco se perde num olhar desesperado

O moinho se despedaça no mar das horas
Perco minha idade nas estacas do vento

Vi um contorno curvado
Afogando as têmporas na saliva
Arranhando a angústia nas paredes

As cortinas do tempo cortaram o rosto

Os mortos bebem o leite vertido
no ventre

A água do sonho se perde numa caverna de promessas

E a alma se esconde no mármore.