
quarta-feira, 10 de março de 2010
CÃNONE E ANTICÂNONE (I)
João Alexandre Barbosa, no ensaio A Biblioteca Imaginária, publicado em livro de mesmo nome (São Paulo: Ateliê Editorial, 2003), comenta que em 1936 foi instituído, no Columbia College, “um curso de humanidades baseado na leitura de ‘grandes obras’, isto é, obras que, por consenso, teriam sido fundamentais para a própria imagem daquilo que, naqueles tempos, chamava-se, sem qualquer hesitação, cultura ocidental”. Este cânone, diz Barbosa, incluía, entre outros autores, Homero, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Virgílio, até autores do século XIX, como Dostoiévski e Stendhal, mas excluía outros nomes, como Baudelaire, Flaubert, Tolstói e Balzac. Conforme escreve o autor, “esta instabilidade de avaliação quanto às escolhas, para o leitor de hoje, deixando-se de lado as mudanças de valor ocorridas a partir dos anos posteriores à Segunda Guerra, ainda mais se acentua no que se refere ao elenco de autores críticos escolhidos. Na verdade, nem todos falam ao público de hoje como poderiam falar ao sistema acadêmico dos anos 30.” Barbosa acrescenta que “entre o então da instituição do curso do Columbia College e o agora de nossa experiência literária, cultural e histórica, transcorreu um tempo de modificações de valores que transforma o próprio modo de apreensão e leitura daquelas ‘grandes obras’ explicitado pelos ensaios de interpretação que as sucederam”. Seis anos depois de instituído o curso do Columbia College, continua, foi publicado “o livro Mimesis, A Representação da Realidade na Literatura Ocidental, de Erich Auerbach”, que apresenta um cânone bem diferente, incluindo autores como Petrônio, Tácito, Rabelais, Racine, Balzac, chegando inclusive a James Joyce. Em todas estas escolhas de autores essenciais, porém, predominava “um forte apelo classicizante, dando como resultado uma rígida hierarquização de gêneros, raças e modelos culturais, que somente será abalada pelos movimentos multiculturais de anos recentes”. Já “no caso brasileiro, a formação do cânone literário seguiu, de bem perto, o próprio desenvolvimento de nossas relações de dependência e de autonomia com vistas às fontes metropolitanas”. Barbosa refere-se então aos diferentes modelos canônicos apresentados no século XIX e início do século XX por críticos como Sílvio Romero e José Veríssimo, que, se por um lado foram essenciais para a formatação de um conceito de literatura brasileira (com forte coloração nacionalista e xenófoba), também cometeram equívocos, como a exclusão de Machado de Assis, por Romero, e a incompreensão de Cruz e Sousa, por Veríssimo. Vale a pena lembrar aqui de Antonio Candido, que em sua Formação da Literatura Brasileira exclui o barroco e o arcadismo (logo, deixando de lado autores como Gregório de Matos, o Padre Vieira e Claudio Manuel da Costa), para privilegiar autores românticos de valor duvidoso, como Casimiro de Abreu. Enfim, discutir a formação de um cânone é sempre assunto acalorado, mas que permite identificarmos as diferentes linhas de pensamento que nortearam as inclusões e exclusões de autores de uma determinada noção de literatura essencial, de qualidade. Quando há honestidade intelectual, essas escolhas são orientadas por modelos teóricos, sujeitos a releituras críticas ao longo da história; quando está ausente essa honestidade, as escolhas são feitas por questões de política, marketing ou relações pessoais, fatores que nada têm a ver com literatura séria, e que por isso mesmo acabam caindo no merecido esquecimento.
terça-feira, 9 de março de 2010
GALERIA DE HERÓIS (III)
VALE A PENA LER DE NOVO
A revista Inimigo Rumor, editada no Rio de Janeiro por Augusto Massi e Carlito Azevedo, realizou em seus primeiros números (que contaram com a colaboração editorial de Júlio Castañon Guimarães) um mapeamento criterioso da poesia brasileira contemporânea, publicando autores como Augusto de Campos, Duda Machado, Régis Bonvicino, Claudia Roquette-Pinto, Antônio Risério e Arnaldo Antunes, entre outros nomes estabelecidos, além de poetas jovens, com pouca oscilação de qualidade. Num segundo momento, a revista assumiu contornos mais ecléticos e tornou-se porta-voz de uma dicção coloquial e cotidiana, que reivindica a herança do Modernismo de Bandeira e Drummond e de autores da década de 1970, como Cacaso e Francisco Alvim. Os elementos centrais dessa vertente são o lirismo, a subjetividade, a temática prosaica, inspirada na crônica de jornal, e o humor (por vezes opaco ou ingênuo, sem a contundência de Glauco Mattoso e Sebastião Nunes). É uma poesia que não investe na renovação léxica ou sintática, respeita o discurso e a lógica linear e não busca novos processos de criação. A defesa do lirismo contra a vanguarda, feita por poetas desse grupo, causa certa surpresa, e merece breve comentário. Lirismo e subjetividade estão presentes, em maior ou menor grau, em toda a poesia moderna, inclusive na vanguarda (lembremos aqui o Poetamenos, de Augusto de Campos, ciclo de poemas coloridos de temática amorosa, inspirados na "melodia de timbres" do músico austríaco Anton Webern). A revolta da modernidade, desde seus primórdios, foi contra o eu lírico narcísico, de efusão sentimental, dominante na época romântica e ainda na simbolista. Ao reduzir a presença do eu, focando a atenção no mundo objetivo e na linguagem, a modernidade deu um novo sentido ao lirismo, que foi reinserido na dimensão social e histórica (lembremos aqui de Paul Celan, autor de rigoroso artesanato lingüístico e não menos intenso do ponto de vista emocional, e ainda o Rilke dos Novos Poemas).
Propor uma antinomia radical entre o lírico e o lingüístico parece-nos uma desculpa para justificar poéticas frágeis, assim como a tática diversionista de apelar a um suposto "conteúdo" ou "urgência de dizer" que não raro se limita à descrição banal da frase escrita numa camiseta. Outro ponto que carece de discussão é o relativo ao enfoque crítico da realidade. Talvez pela excessiva influência do método sociológico de Antonio Candido na universidade, esse debate ainda está atrasado entre nós. O retrato ácido, caricatural do mundo urbano e fabril está presente em Baudelaire, Cesário Verde, Ezra Pound, Drummond, Décio Pignatari. Não há conflito entre consciência social e consciência da forma (discussão já travada na Rússia na década de 1930 entre os cubo-futuristas e os adeptos do realismo socialista), ao contrário: a denúncia é ainda mais expressiva quando apoiada num texto poético forte e eficaz. No poema Nós, de Cesário Verde, para ficarmos num único exemplo, podemos ver a antecipação do futurismo pela temática urbana, concisão e estilo telegráfico de certas passagens: "cidades fabris, industriais,/ De nevoeiros, poeiradas de hulha" / (...) "condados mineiros! Extensões/ Carboníferas! Fundas galerias!/ Fábricas a vapor! Cutelarias!/ E mecânicas, tristes fiações! / (...) Mas isso tudo é falso, é maquinal, / Sem vida, como um círculo ou um quadrado, / Com essa perfeição do fabricado, / Sem o ritmo do vivo e do real". Não encontramos essa fúria rebelionária, social e semântica, na poesia defendida pelo grupo da Inimigo Rumor, que se limita, muitas vezes, ao registro de pequenas cenas corriqueiras, com palavras singelas, às vezes pueris, como os diminutivos, sem a força de impacto de Cesário Verde, Brecht, Maiakovski ou Drummond (aquele das peças mais consistentes, como Nosso Tempo: "Os lírios não nascem / da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se / na pedra. (...) / Tenho palavras em mim buscando canal, / são roucas e duras, / irritadas, enérgicas, / comprimidas há tanto tempo, / perderam o sentido, apenas querem explodir").
O uso da ironia e da sátira na poesia de temática urbana é uma conquista que remonta ao século XIX, especialmente a Jules Laforgue e Tristan Corbière, autores valorizados por Ezra Pound, que via no humor uma forma de crítica não apenas social, mas também da linguagem. O humor é subversivo, corrói as fórmulas gastas do discurso, as pérolas da retórica, as metáforas vazias, e acrescenta ao vocabulário poético termos considerados chulos, obscenos ou de mau gosto, pour épater le bourgeois. Recordemos aqui alguns versos de Corbière, em tradução de Augusto de Campos: "Não nasceu por nenhum lado / e foi criado como mudo,/ tornou-se um arlequim-guisado, / mistura adúltera de tudo. / Tinha um não-sei-que, — sem saber onde; / Ouro, — sem trocado para o bonde; / Nervos, — sem nervo; vigor sem 'garra'; / Alma, — faltava uma guitarra; / Amor, — mas sem bastante fome. / — Muitos nomes para ter um nome. / Idealista, — sem idéia. Rima / Rica, — sem matéria-prima; / De volta, — sem nunca ter ido; / Se achando sempre perdido." Comparemos essa peça com o poema-piada Parque, de Francisco Alvim, que o crítico Manuel da Costa Pinto incluiu em sua Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI: "é bom / mas / é muito misturado". Enquanto o texto de Corbiere, a cada releitura, permite a investigação de novos sentidos, o texto de Alvim esgota-se na primeira leitura, pela banalidade. Esse estilo ingênuo de humor, que deriva dos versos de circunstância de Manuel Bandeira, não pode competir com os mestres do sarcasmo e da irreverência de nosso idioma, como Gregório de Matos, Bocage, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Glauco Mattoso; é um humor bem-comportado, tímido, funcionário público, de óculos e gravata, incapaz de atingir a força expressiva dos clowns de que falava o próprio Bandeira ("O lirismo difícil e pungentes dos bêbedos / O lirismo dos clowns de Shakespeare"). Acredito que nossa literatura só teria a ganhar com uma poesia, ou antipoesia, coloquial-cotidiana de alta elaboração formal, mas este não é o caso de muitos poetas valorizados pela revista Inimigo Rumor, cuja qualidade literária não está no mesmo nível de sua divulgação publicitária, não apresentando nenhuma aventura intelectual.
Propor uma antinomia radical entre o lírico e o lingüístico parece-nos uma desculpa para justificar poéticas frágeis, assim como a tática diversionista de apelar a um suposto "conteúdo" ou "urgência de dizer" que não raro se limita à descrição banal da frase escrita numa camiseta. Outro ponto que carece de discussão é o relativo ao enfoque crítico da realidade. Talvez pela excessiva influência do método sociológico de Antonio Candido na universidade, esse debate ainda está atrasado entre nós. O retrato ácido, caricatural do mundo urbano e fabril está presente em Baudelaire, Cesário Verde, Ezra Pound, Drummond, Décio Pignatari. Não há conflito entre consciência social e consciência da forma (discussão já travada na Rússia na década de 1930 entre os cubo-futuristas e os adeptos do realismo socialista), ao contrário: a denúncia é ainda mais expressiva quando apoiada num texto poético forte e eficaz. No poema Nós, de Cesário Verde, para ficarmos num único exemplo, podemos ver a antecipação do futurismo pela temática urbana, concisão e estilo telegráfico de certas passagens: "cidades fabris, industriais,/ De nevoeiros, poeiradas de hulha" / (...) "condados mineiros! Extensões/ Carboníferas! Fundas galerias!/ Fábricas a vapor! Cutelarias!/ E mecânicas, tristes fiações! / (...) Mas isso tudo é falso, é maquinal, / Sem vida, como um círculo ou um quadrado, / Com essa perfeição do fabricado, / Sem o ritmo do vivo e do real". Não encontramos essa fúria rebelionária, social e semântica, na poesia defendida pelo grupo da Inimigo Rumor, que se limita, muitas vezes, ao registro de pequenas cenas corriqueiras, com palavras singelas, às vezes pueris, como os diminutivos, sem a força de impacto de Cesário Verde, Brecht, Maiakovski ou Drummond (aquele das peças mais consistentes, como Nosso Tempo: "Os lírios não nascem / da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se / na pedra. (...) / Tenho palavras em mim buscando canal, / são roucas e duras, / irritadas, enérgicas, / comprimidas há tanto tempo, / perderam o sentido, apenas querem explodir").
O uso da ironia e da sátira na poesia de temática urbana é uma conquista que remonta ao século XIX, especialmente a Jules Laforgue e Tristan Corbière, autores valorizados por Ezra Pound, que via no humor uma forma de crítica não apenas social, mas também da linguagem. O humor é subversivo, corrói as fórmulas gastas do discurso, as pérolas da retórica, as metáforas vazias, e acrescenta ao vocabulário poético termos considerados chulos, obscenos ou de mau gosto, pour épater le bourgeois. Recordemos aqui alguns versos de Corbière, em tradução de Augusto de Campos: "Não nasceu por nenhum lado / e foi criado como mudo,/ tornou-se um arlequim-guisado, / mistura adúltera de tudo. / Tinha um não-sei-que, — sem saber onde; / Ouro, — sem trocado para o bonde; / Nervos, — sem nervo; vigor sem 'garra'; / Alma, — faltava uma guitarra; / Amor, — mas sem bastante fome. / — Muitos nomes para ter um nome. / Idealista, — sem idéia. Rima / Rica, — sem matéria-prima; / De volta, — sem nunca ter ido; / Se achando sempre perdido." Comparemos essa peça com o poema-piada Parque, de Francisco Alvim, que o crítico Manuel da Costa Pinto incluiu em sua Antologia Comentada da Poesia Brasileira do Século XXI: "é bom / mas / é muito misturado". Enquanto o texto de Corbiere, a cada releitura, permite a investigação de novos sentidos, o texto de Alvim esgota-se na primeira leitura, pela banalidade. Esse estilo ingênuo de humor, que deriva dos versos de circunstância de Manuel Bandeira, não pode competir com os mestres do sarcasmo e da irreverência de nosso idioma, como Gregório de Matos, Bocage, Álvares de Azevedo, Bernardo Guimarães, Glauco Mattoso; é um humor bem-comportado, tímido, funcionário público, de óculos e gravata, incapaz de atingir a força expressiva dos clowns de que falava o próprio Bandeira ("O lirismo difícil e pungentes dos bêbedos / O lirismo dos clowns de Shakespeare"). Acredito que nossa literatura só teria a ganhar com uma poesia, ou antipoesia, coloquial-cotidiana de alta elaboração formal, mas este não é o caso de muitos poetas valorizados pela revista Inimigo Rumor, cuja qualidade literária não está no mesmo nível de sua divulgação publicitária, não apresentando nenhuma aventura intelectual.
(Trecho do artigo Revistas definem o panorama literário, que publiquei há tempos no jornal O Casulo.)
DO CADERNO DE ESTUDOS (II)
Passos transfigurados em papoulas
e pupilas.
Qual desmesura
da anfíbia superfície?
Que alfabeto de poros
nessa esfera cúbica?
Em que tempo essa imagem
tatuou-te de ocelos?
Quais fraturas,
Que nós de água desatados?
No inverno
branco e atonal,
calêndulas e nardos
inventam seu próprio
mapa-múndi.
* * *
Exílios na pele; palavras subtraem cérberos;
estrela semovente ou
espectro
de uma voz;
cegante, replicante,
irrompe em rubro; retráteis
ecos dessa voz — fera
rompante.
(Voz-galatéia:
tão distante
e ubíqua
me retém.)
Minha pátria foi essa voz.
* * *
Voz já sem eco, só
visões de mescalina;
Minha pátria, o silêncio
— imagem desfocada
ou oblívio —
no transmutar-se em água.
(Um jogo de
decapitações:
extravio dos prováveis,
sem desfibrar a
rocha.)
e pupilas.
Qual desmesura
da anfíbia superfície?
Que alfabeto de poros
nessa esfera cúbica?
Em que tempo essa imagem
tatuou-te de ocelos?
Quais fraturas,
Que nós de água desatados?
No inverno
branco e atonal,
calêndulas e nardos
inventam seu próprio
mapa-múndi.
* * *
Exílios na pele; palavras subtraem cérberos;
estrela semovente ou
espectro
de uma voz;
cegante, replicante,
irrompe em rubro; retráteis
ecos dessa voz — fera
rompante.
(Voz-galatéia:
tão distante
e ubíqua
me retém.)
Minha pátria foi essa voz.
* * *
Voz já sem eco, só
visões de mescalina;
Minha pátria, o silêncio
— imagem desfocada
ou oblívio —
no transmutar-se em água.
(Um jogo de
decapitações:
extravio dos prováveis,
sem desfibrar a
rocha.)
segunda-feira, 8 de março de 2010
DO CADERNO DE ESTUDOS (I)
Nervuras na folha, inscrições; imprecisas cifras
de nuvens,
étoiles, epitélios:
tudo é número.
(Sou o tempo, disse-me
com lábios
de sal, ao encantar-se
em labirinto.)
* * *
Rastro de noites que se fundem em palavras
como jogos marsupiais;
piscina selvagem onde recolho
os despojos de meu rosto.
* * *
Seria
o movimento
da memória
erigindo arquiteturas
de pele
em cada cena
vívida?
* * *
Tempo talvez
de reconfigurações?
* * *
Música, libações, dança, dança, dança.
Palavra jaguar este olho vertigem olho vértice olho vértebra —
desarvora o limo
palavra de vãos ventre voz
passos no limiar da voz
pássaros ao inverso
do vento.
* * *
Seria
uma refabulação
de prováveis?
— Desventra noite garganta pelugem febre figuras de voz.
* * *
Porque a palavra jaguar
vertigem
vértice
vértebra
voz.
* * *
Expandidas em múltiplas variações plásticas musicais inflamam a fibra da fábula.
* * *
Hipotéticas linhas de mandala cores aéreas quatro caminhos
caranguejo em galáxia noire
laborando
prismas.
Distância.
Realinhamentos.
* * *
Dodecaedro do scorpio:
universo de saliências
e suas revoluções.
de nuvens,
étoiles, epitélios:
tudo é número.
(Sou o tempo, disse-me
com lábios
de sal, ao encantar-se
em labirinto.)
* * *
Rastro de noites que se fundem em palavras
como jogos marsupiais;
piscina selvagem onde recolho
os despojos de meu rosto.
* * *
Seria
o movimento
da memória
erigindo arquiteturas
de pele
em cada cena
vívida?
* * *
Tempo talvez
de reconfigurações?
* * *
Música, libações, dança, dança, dança.
Palavra jaguar este olho vertigem olho vértice olho vértebra —
desarvora o limo
palavra de vãos ventre voz
passos no limiar da voz
pássaros ao inverso
do vento.
* * *
Seria
uma refabulação
de prováveis?
— Desventra noite garganta pelugem febre figuras de voz.
* * *
Porque a palavra jaguar
vertigem
vértice
vértebra
voz.
* * *
Expandidas em múltiplas variações plásticas musicais inflamam a fibra da fábula.
* * *
Hipotéticas linhas de mandala cores aéreas quatro caminhos
caranguejo em galáxia noire
laborando
prismas.
Distância.
Realinhamentos.
* * *
Dodecaedro do scorpio:
universo de saliências
e suas revoluções.
DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Minha musa, claro, é Elektra Natchios! Para quem não conhece as HQs nem viu o filme do Demolidor, ela é filha de um diplomata grego, foi colega de faculdade de Matt Murdock, toca piano, conhece música clássica, é linda, inteligente, independente, ousada, sexy e sabe tudo sobre artes marciais. Se fosse poeta também, seria a perfeição...
domingo, 7 de março de 2010
O ANO DO TIGRE (II)
Caros, este ano até que começou muito bem, para mim. Publiquei Letra Negra, o melhor poema que escrevi até hoje; prossigo com os treinos de Aikidô e Espada Tai Chi e com a leitura de 20 clássicos da literatura portuguesa; fiz um serviço de free-lancer na JWT, uma das maiores agências de publicidade do país, e agora estou ministrando dois cursos de literatura e criação poética, na Casa das Rosas e na Biblioteca São Paulo (confiram informações a respeito no blog do Laboratório de Criação Poética, na lista de links no lado direito da tela). Há várias novidades literárias em curso, entre livros, festivais de poesia, antologias e revistas, que contarei no momento oportuno... só para adiantar uma notícia em primeira mão: a série Caixa Preta, que organizo para a Lumme Editor, logo lançará três novos títulos, de autoria dos poetas Micheliny Verunschk, Lígia Dabul e Thiago Ponce de Moraes, aguardem! (Claro que não haverá resenha alguma na seção Rodapé da Folha de S. Paulo, pois não somos da panelinha da Inimigo Rumor, mas isso não tem importância: o tempo, o maior dos críticos literários, fará as suas escolhas, e ele não privilegia amigos, não persegue inimigos nem pode ser subornado com elogios, publicações, viagens ou prêmios literários). Também estou preparando a segunda edição de A Sombra do Leopardo, que saiu em 2001, além de traduzir o Poeta em Nova York, de Federico Garcia Lorca, editar a Zunái e várias outras coisas... às vezes, nem eu sei como consigo fazer tudo isso ao mesmo tempo... e ainda conseguir assistir aos filmes de Bergman e Pasolini no DVD, ler poemas de Mário de Sá Carneiro e fugir, vez ou outra, para comer um bom prato de sashimis! É verdade que nem tudo são flores: aconteceram algumas decepções (a dor é inseparável do samsara), as dificuldades financeiras continuam, e não são poucas; mas estou me sentindo forte, confiante, seguro, o que já é meio caminho andado...
Há braços,
CD
Há braços,
CD
sexta-feira, 5 de março de 2010
VIVA PIVA!

Homenagem ao poeta Roberto Piva neste sábado, a partir das 20h30, no b arco virgílio, localizado na rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, 426, Pinheiros, tel. 3081-6986. Haverá leitura de poemas do autor de Paranóia por Claudio Willer, Ademir Assunção, Frederico Barbosa, Marcelino Freire, Roberto Bicelli, entre outros. Não será cobrado ingresso, mas o público poderá fazer doações para a compra de medicamentos necessários ao tratamento de Piva, que saiu do Hospital das Clínicas e está em casa, mas ainda precisando de cuidados.
UM FRAGMENTO DE PARANÓIA, DE ROBERTO PIVA
(…)
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longos delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota
minha alma desconjurada passa rodando
colégios e carros fúnebres estão desertos
pelas calçadas crescem longos delírios
punhados de esqueletos são atirados no lixo
eu penso nos escorpiões de ouro e estou contente
os luminosos cantam nos telhados
eu posso abrir os olhos para a lua aproveitar o medo das nuvens
mas o céu roxo é uma visão suprema
minha face empalidece com o álcool
eu sou uma solidão nua amarrada a um poste
fios telefônicos cruzam-se no meu esôfago
nos pavimentos isolados meus amigos constroem um manequim fugitivo
meus olhos cegam minha mente racha-se de encontro a uma calota
minha alma desconjurada passa rodando
quinta-feira, 4 de março de 2010
RELENDO SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (II)
Confundindo os seus cabelos com os cabelos do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura dos seus pulsos penetra nas espumas.
Passam aves de asas agudas e a curva dos seus olhos prolonga o interminável rastro no céu branco.
Com a boca colada ao horizonte aspiram longamente a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de delícia e vertigem onde o ar acaba e começa.
E aos seus ombros cola-se uma alga, feliz de ser tão verde.
quarta-feira, 3 de março de 2010
RELENDO SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN (I)
Numa disciplina constante procuro a lei da liberdade medindo o equilíbrio dos meus passos.
Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam, e quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém, mas só de laços para o vazio horror das voltas do caminho.
* * *
Mas as coisas têm máscaras e véus com que me enganam, e quando eu um momento espantada me esqueço, a força perversa das coisas ata-me os braços e atira-me, prisioneira de ninguém, mas só de laços para o vazio horror das voltas do caminho.
* * *
Tudo é nu e as estátuas ressuscitam
Silêncio na manhã sem tempo
Extinção das vozes que se cruzam
E se perdem na agonia como o vento
Estátuas lisas, puras, cegas,
Estátuas de gestos involuntários
No ar sem movimento.
* * *
A raiz da paisagem foi cortada.
Tudo flutua ausente e dividido.
Tudo flutua sem nome e sem ruído.
(Do livro Poemas escolhidos, de Sophia de Mello Breyner Andresen. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.)
terça-feira, 2 de março de 2010
UMA ENTREVISTA COM GARY SNYDER
Por Rodrigo Garcia Lopes
Como você vê a importância e a presença cultural das chamadas poéticas orais, ou da etnopoesia, na poesia americana contemporânea?
Como você vê a importância e a presença cultural das chamadas poéticas orais, ou da etnopoesia, na poesia americana contemporânea?
A etnopoética não teve muita influência, sinto dizer, em termos de quais são seus potenciais. A verdade é que pouquíssimos leitores e escritores se importam com as tradições orais. Para mim e para alguns colegas meus é um grande interesse, e acho que há muito a se aprender com elas, principalmente a importância da performance. Toda literatura oral é, por definição, apresentada Há muito a se aprender com elas, há todo um ensinamento que vai com isso, para explicar como as tradições orais - antes da descoberta ou invenção da escrita, ou em culturas que não tinham escrita - ainda assim podem ser tão ricas, como podem ter tantas canções e histórias nas tradições orais. Milhares e milhares de histórias e canções podem existir dentro de uma tradição oral. Como você deve saber, os textos fundadores da literatura ocidental, a Ilíada e a Odisseia, eram orais, para começar, e só mais tarde foram escritos. Mas na América do século 21 existem formas contemporâneas praticadas como performances orais que ainda podem ser testemunhadas. Hoje o mais próximo disso são as "poetry slams" [competições de poesia falada], onde os poetas têm que memorizar seus poemas e fazer uma apresentação inteiramente oral. A arte da performance - onde geralmente o poeta ou o artista é também o "performer" - as performances beiram o teatro, dança, ritual e cerimonial: todas essas são qualidades da arte oral. A maioria de nós não está praticando isso, mas é algo que aprendemos e respeitamos. Nas poéticas orais a linha entre poesia e prosa não é tão clara, porque toda as tradições dramáticas de narrar estórias são métricas e rítmicas, e é como uma forma de verso livre solta ou até concisa. Se você já assistiu uma sessão de narração tradicional, e ainda há muitos indígenas especialistas nisso, contadores de histórias vivos, que às vezes cantam ou semi-cantam. Na Ásia Central há uma tradição forte na Mongólia, no Azerbaijão ou na Turquia. Nestes lugares ainda se pratica isso, embora eles tenham escrita. Nossos romances em prosa são artificialmente chatos e planos de certa maneira. E as histórias não seriam bem recebidas se fossem escritas como os contos. Dennis Tedlock, que é um estudioso proeminente da literatura oral, e cujo campo é a antiga língua e a narrativa maia, e ele também trabalha com as tradições Zuni do Sudoeste dos EUA. Ele desenvolveu um sistema de escrever estórias, em inglês, tal como são contadas, com versos de extensões diferentes e diferentes tamanhos de fontes: fontes grandes para vozes altas e pequenas fontes para vozes suaves, e fontes minúsculas para sussurros. É muito bom e rico o que ele fez, mas ninguém aprendeu muito com isso. Nós apoiamos da boca pra fora as tradições orais mas a maioria das pessoas não conhece nada sobre isso.
E isso reflete o caráter marginal das culturas indígenas na cultura norte-americana.
Claro que estas culturas são marginais, todo mundo sabe disso. Embora eles tenham uma proteção legal e uma voz forte eles são numericamente pequenos. E claro que a tradição oral não é nativa só dos EUA: ela se encontra também na América do Sul, no sul da Ásia, e por toda a África, e está presente ainda aqui ou ali na Europa, mas não há ninguém fazendo algo com isso realmente. Eu diria que a tradição oral mais viva na cultura americana são as piadas sujas.
(...)
Você foi um dos fundadores do movimento da Ecologia Profunda. E como você vê o movimento ecológico hoje, especialmente nos EUA?
Quando comecei a escrever poesia a ideia de um escritor se interessar por ecologia, pelo mundo natural e por filosofias orientais soava como algo bizarro para a maioria das pessoas. Achavam que eu deveria ser eurocêntrico. Agora creio que há uma maneira mais cosmopolita de se perceber as coisas, por isso as entrevistas se tornaram um pouco mais interessantes. O governo Bush se voltou contra o movimento ecológico. Hoje há duas correntes, eu diria: num nível nacional, um grupo que trabalha como um organização, um lobby, com escritórios em Washington, e que tenta mudar a legislação. Do outro lado, grupos regionais e locais que estão em toda parte, existem as pessoas que estão trabalhando em suas próprias regiões e bacias hidrográficas, a maioria sendo voluntária, e que são pessoas comprometidas em trabalhar com temas locais, e estes estão trabalhando muito bem. Em todo o país, ambientalistas regionais e locais têm chegado a algum tipo de consciência sobre o mundo não-natural, e também uma compreensão maior sobre a viabilidade da natureza. Isto se vê no movimento das bacias hidrográficas: as pessoas entendem que as bacias são ecossistemas em si mesmos, e que através da compreensão da qualidade da água é possível saber o que está errado com nosso sistema. E também há o tema da biodiversidade, o que significa potencialmente perder muitas espécies causada pelo comportamento humano, como a pesca predatória, ou intolerância aos lobos no norte das Montanhas Rochosas, ou com os ursos pardos e outros grandes animais. Em geral, as pessoas acham que a natureza é uma inconveniência . As forças econômicas que impulsionam o desmatamento excessivo na bacia amazônica ou na Indonésia, através de companhias japonesas e chinesas, são um problema global. Por isso, uma das primeiras áreas a ser corrigida é a imaginação humana do mundo. Costumo dizer que a imaginação humana do mundo existente num haiku pode ser a mesma que vai salvar o mundo. Essa imaginação que leva em conta o outro, que neste é caso é simplesmente o outro, o não-humano.
(...)
É possível traçar uma linha de americanos outsiders, que fundem cultura e natureza, uma ética transcendentalista que recorre em momentos da história americana? Você se vê como parte de uma tradição?
Claro que sim. Aprendi muito com Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson ou Walt Whitman, mas não vejo a ideia do Transcendalismo e do Romantismo estão ressurgindo. Essa visão não é muito útil. Não é assim que as coisas acontecem, porque as influências estão constantemente correndo juntas. Todas essas coisas são simplesmente componentes do passado e o presente corre adiante. Eu diria que um dos componentes mais fortes do passado do mundo desenvolvido é a história de Abraão, a ideia de que Jeová deu a algumas pessoas a Terra Prometida. Que ideia intoxicante! A ideia de que aquela terra foi prometida a você, mesmo que exista gente morando ali, você pode ir lá e se apropriar. Foi isso que os judeus fizeram com Canaã, e foi isso que os europeus fizeram com a América do Norte, que eles a chamaram de "a Terra Prometida". Você já havia pensado nisso? A Califórnia era chamada de Terra Prometida quando as pessoas estavam se movendo rumo ao Oeste, só que já havia gente morando nela! . Nós não temos que nos preocupar com quem está lá porque nos foi prometida, Deus nos deu, é a promessa divina da Torá, da Bíblia, é parte do pacto de Abrãao. Isto não é só falar de religião enquanto uma abstração, leia de novo o livro do Gênesis para entender o que estou querendo dizer. Nós não tínhamos conhecimento deles mas assumimos que era nossa. Já a ideia do "Destino Manifesto" é apenas uma outra maneira de invocar essa psicologia da Terra Prometida: o governo central americano do século 19 daquele tempo afirmava que toda a América do Norte havia sido prometida a nós.
(Fragmentos de uma entrevista com o poeta norte-americano, realizada por Rodrigo Garcia Lopes, publicada em 2009 no jornal O Estado de S. Paulo. A primeira parte da matéria está na página http://estudiorealidade.blogspot.com/2009/05/entrevista-com-gary-snyder-por-rodrigo.html, e a segunda, em http://estudiorealidade.blogspot.com/2009/06/entrevista-historica-com-gary-snyder.html, vale a pena conferir.)
segunda-feira, 1 de março de 2010
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