domingo, 31 de janeiro de 2010

GALERIA: HELMUT NEWTON


RELENDO MOI-MÊME (VII)

GAVITA, GAVITA (fragmentos)
escuro, escuro como um uivo - som de sombra - esquálido e fecal - voz miúda, no espaço espesso. gestos surdos, de pele tensionada - mãos fluidas que tateiam o ar. sim, está enfeitiçada. ginga, negra e cega, em voo tosco. vibra o torso, em vaivém, nas pontas dos pés. ginga e gira, com serpentes nos braços, e treme toda, torva e turva. não tem unhas, só garras; nem lábios, apenas gritos mudos. ela expande os passos, sem volúpia ou cisma, e s'incandesce, crestando o solo. é toda fera e fúria. está enfeitiçada, e me apavora. eu sorvo sua treva, e afundo em visões de salamandra. visitei as páginas de um livro de magia, e invoquei as figuras retorcidas da insânia: vêm, astaroth, asmodeus, sintam a carne que ofereço a seus caninos.

(eu sabia os nomes das flores, quando menino, das estrelas e insetos;) (juntava lagartas numa caixa de sândalo) (e rezava pelas almas das princesas suicidadas.) (um albino ensinava-me latim) (e apertava fortemente meus testículos.) (laos deo, laos deo.) (citações de cícero e da guerra da gália) (até soar a sineta para o desjejum.) (eu gostava dos turíbulos e ostensórios,) (dos saltérios e vitrais) (em que o filho do homem) (sangrava por nossas culpas.) (excitava-me com sua dor.) (amava ícones mal pintados,) (palavras arcanas,) (música de violoncelo) (e sonhava ser marinheiro) (ou alcoólatra.) (certo dia, fugi.) (oh estações, oh castelos.) (açoitei a delicadeza,) (fiz-me barro, besta, bruto;) (um selvagem, sim, selvagem,) (e toquei tambor) (na noite do sabá.)

(minha mãe tinha seios brancos) (e voz branca de medievo místico.) (ela foi a lua cheia,) (angélica e nivosa,) (oh monja da cela constelada.) (meu pai foi um rude fazendeiro,) (igualmente branco,) (cujo olhar tinha odor de antigas armaduras.) (recordo seu rosto de falcão,) (as pequenas mãos trigueiras,) (a voz pesada, de bacamarte.) (eles eram de diversa estirpe,) (mas eu os amei,) (em minha estranha epiderme,) (na nostalgia de outro reino,) (que não sei.) (dizem os juristas) (que no céu) (todos são brancos,) (como as velas dos santos,) (o linho,) (o algodão.) (é verdade que sou um deslocado,) (desbocado,) (excêntrica bizarria,) (rosa cúbica, talvez.) (vejam, aqui está) (o negrinho) (que fala francês,) (membro de uma raça impura,) (turba de pobres diabos,) (ratos depenados,) (pretos amaldiçoados.) (é verdade,) (confesso aos senhores,) (a minha escurez,) (mas guardo comigo) (a música das esferas.)

está enfeitiçada, e canta ladainhas. em nervosa mímica de punhos, move-se como a naja em sua caverna, o peito magro ornado com colares de crânios, os cabelos azuis cobertos de cinzas. ela dança, dança sobre o meu ventre, agitando as armas de suas múltiplas mãos, e beija-me a boca com os acres perfumes do crematório. delírio contorcido, convulsivo / de felinas serpentes, / no silamento e no mover lascivo / das caudas e dos dentes. (não há qualquer caminho) (ou via ideal) (com trigais e monjolos,) (apenas a rua) (tortuosa do grito,) (a vereda) (fantástica) (do absinto.)
(Do livro Romanceiro de Dona Virgo. Rio de Janeiro: Lamparina, 2004.)

GALERIA: LETRA NEGRA


sábado, 30 de janeiro de 2010

RELENDO MOI-MÊME (VI)

LETRA NEGRA (fragmentos)
XII

invento estranhos jogos, ó górgonas, busco uma saída para a insânia. crio nomes para as cores: azul é asmodeus, vermelho, belial, roxo, astaroth, branco, balam, violeta, astarté. alucino palavras até queimarem parietais, rótulas, tendões, nervos retorcidos em rude seqüência de mutações. renomeio teu corpo, matéria transfigurável, ao percorrê-lo de esperma: boca é amêijoa, dorso é fataça, vagina é lagamar, olhos são gavinhas, tetas são guantes, e assim até o extremo da pele. escrevo nomes para o teu nome: você é agramática majólica, replicante sexual, lince nervurada, ubíqua sulamita, ninfa alvaiade, náutila lupina, mielina menina da fronteira.

XXI

desofuscar difrações epidérmicas

vegetal noturno grafias de retráteis.

corrosão, sede nocaute de especulares

seqüência de mamíferos ao ignorado,

vegetal noturno atravessa buceta réptil.


XXII

descontínua realidade mandíbula de mamute ou mandala.


XXIII

águas coléricas
nas folhas,

esqueletos
de carros

convertidos
em rasuras,

cão desenterra
secas cabeças
de cogumelos

— fragmentos
de metáforas
podres:

paisagem
que se transfigura
e definha

entre uma
respiração
e um breve piscar
de pálpebras.


XXVIII

caranguejos da noite
arranham farpas
esfiapam silêncio
sem órbitas de vogais
parietais de esqueletos
investidos de ódios
em onde de nuncas:
noite é a ferida do nome
noite é queimam palavras
ferida é nunca de nunca mais


XXIX

esta é a maneira de sermos brutais,
com a aspereza
de quem caminha
pelas ruas,
mascando lascas.

não preciso dar explicações
com palavras de madeira,
porque sou impuro
e espontâneo
como a fera.

esta é minha sombra magra, confesso,
estes, os meus passos desordenados.

nenhuma estrela para definir o dramatismo da noite
ao longo da jornada,
nem os ramos
de uma árvore inclinada.

quem considere imprecisa a descrição,
que escreva o seu próprio
rascunho,
com a fúria
violeta
do escaravelho.

sem contar nove vezes
menos um eco,
sigo minha jornada bípede,
de energúmeno.

nada aqui faz sentido para os meus lábios
vociferantes;

e como não venero
deuses de esterco,
nem as clausuras
cíclicas da história,

sigo andando
com minhas omoplatas,
minhas axilas,
meu caralho,

minha testa
desenhada
com símbolos alquímicos,

e um poema
escrito para ninguém
nas linhas torcidas

de meus pulsos.
(Letra Negra. São Paulo: Arqueria Editorial, 2010)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON (VII)


RELENDO MOI-MÊME (V)


BETTY BLUE


I

Piano, tarântula;
punho ferido
e o globo ocular
pelo desmanche
da memória.

II

(Ofélia descentrada,
banha-se em prata
de céu abortado.)

III

Paraíso clorofórmio:
inscrever o exílio
dos lábios na pele,
metalizada e muda.

IV

(Flashback)

Nereida meretriz
na gravata epitáfio;
tufos de barba
da morta madre,
como um presságio.

V

(Finale):

Ele travestiu-se
para o ofício de Perséfone,
após domar a dor.
Repousa agora
o olho único da inquieta.


PARTITURA

Perplexidade, raios de um sol

que redesenha seu centro;

essa matéria tão delicada,

ferozes epitélios da flor;

deslizando das pupilas,

revoluta, para outro mar,

após tingir o flanco da noite.

Fosse apenas o perambular

em outra relva, seria tema

de chanson; dissociada de mim,

reclinada em lua minguante,

seria musa de retrato fauvista,

excedendo o rubro tigrino.

De todo modo, um dia vou

felinizá-la em partitura.


CARANGUEJO

Aquática paisagem, faixas de areia e uma seqüência de morros, horizonte simulando música. Quiosques vendem camarões e mariscos. Meninos magros e morenos jogam bola com uma cabeça decepada. A velha senhora inglesa lê o Herald Tribune com lentes bifocais. O sorveteiro anuncia profecias apocalípticas. Há um furacão nas ilhas Fidji. Esferas planas surgem no céu de Okinawa, como pegadas de urso. Um sargento aposentado em Kansas conversa com os peixes. Não há nada que seja realmente absurdo. Tudo está escrito em algum lugar, nas Tábuas de Esmeralda, no Popol Vuh, no Livro Tibetano dos Mortos. Há quem diga que a espuma no oceano é uma linguagem. Há uma lógica irrefutável no movimento dos astros. O destino foi escrito nas palmas de nossas mãos. Tudo isso ignoro, não me diz respeito; palavras são detritos como algas, conchas ou brincos oferecidos à deusa das águas. Eu só deslizo as pinças entre possibilidades. Invisto minha carapaça vermelho-marrom, que você tanto ama, até o centro da dúvida, para encontrar minha fábula. Eu sou a imagem deste enigma, a contradição de um crustáceo.


ANTICABEÇA (II)

Lona podre, nacos de carne, torsos caindo; escuras mariposas (stukas) caindo; sirenes, uma canção.

Bater nos cornos do céu, capricórnio adoece em luzes de urina; olhos blindados; cano de fuzil apontado para a lua.

Esferas ou cilindros de cérberos; o aço grunhe; rajadas de agni; fogos-fátuos; bocas lanhadas por detritos.

Há um pássaro de três cabeças, e um só canto; uma jovem nua flutua no céu.

Emily pediu um livro (borboleta voando) de gravuras coloridas (sonhada por um chinês), com capa veludosa (desejada por um gato) e marcador de páginas (com bigodes de mandarim).

Ela, que ama peônias, biombos, nanquins, e sonha ser enfermeira num grande hospital em Berlim.

Ela, que ama o verde mar de gaivotas, e a prata que cintila nas peças do aparelho de chá.

Isso foi há quanto tempo? Havia um piano de cauda e lenços brancos, pedaços de carneiro e o pôr-do-sol.

Agora, só há o verde-prata, ou verde-escuro, verde-panther; na boca do dragão.

(Como um livro) (de figuras) (metálicas;) (imagens) (d’esqueletos) (turvos;) (surdos) (espectros) (em sarabanda,) (invernal.)

Palavras zumbem na mente; difícil caminhar com o peso do mundo. Este é um tempo sombrio, tempo da impureza, do branco mesclado ao amarelo.

Lao Tzu rumou para o Sul, montado num touro, búfalo ou grou. O guarda da fronteira pediu-lhe sua inútil sabedoria.
(Poemas do livro Fera Bifronte. Bauru: Lumme Editor, 2009)

GALERIA: CARTIER-BRESSON (VI)


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

RELENDO MOI-MÊME (IV)

DIBUJO
(Abu Ghraib)

Uma figura
de enguia
-palavras
de carbono,
forma esquálida
de garra,
à maneira
simples
de tubérculo.
Dizer
o diamante?
Não, a demência
papilar
traçada
em rocha:
pintura
de mortos,
caligrafia
de grunhidos.
Assim
porque
ferrugem
ou azul-ferrete,
despetalar
os corvos
brancos
- tudo
é tumulto,
gritos
fanhos
na pupila.

TRAÇA

(Entre fólios de ciência antiga e espectros de monjas nuas desencarnadas.)

(Olhos opiados afundam em partituras da Outra Margem.)

(Ruge um leão hipnótico.)

(Letras sangradas na pele de carneiro. Figuras metálicas em expansão.)

(Palavras criam realidades.)

(Traças cavam sendas no papel.)

(Toda leitura é uma cicatriz.)


PULGA

Quando enlouquece na hora vermelha - surda e ascética, em gago contorcionismo - labora semeadura de pústulas, até saciar a fome.


BARATA

Seminuas vendem sabonetes e o mar azul-da-prússia de paisagens recortadas de cartão-postal. Movimentos sincopados de ancas revelam saliências epidérmicas ao som da música melíflua de oboés. Jatos d'água escorrem pela concha do umbigo sob o céu cocainado, longe de estrias e da micose que avança nos pés. O verde em alta definição da folhagem oculta o sulco espesso da cavidade e atrai suspiros plásticos, romanescos, fluindo como sangue menstrual. Súbito, assoma a logomarca com a inocência animal de uma máquina de calcular. Iates e sol jamaicano anunciam o novo capítulo da novela. Seminuas têm medo de barata.


PIOLHO

Barítono de carapaça e gravata quase lilás mergulha os olhos baços no copo de cerveja irlandesa entre cotações do mercado financeiro.(Passa uma sombra magra de seios fumantes.) Verde álcool, cogumelos e vozes graves de semblantes que suicidam a noite estrelada. Lady sings the blues para vocal e piano. Retrato de Wilde na parede e tapeçarias com toscos motivos de gnomos de barba pontuda. O business man engole nacos de carne vermelha entre chamadas ao celular e citações do Economist sobre a crise da balança comercial. Tabaco provoca câncer. Trabalho conduz à liberdade. Café com creme e canela. A metafísica do compromisso institucional. Todo homem de negócios é sério. Tem sapatos sérios de couro italiano e óculos sérios com aro de tartaruga. New York, New York. Bico de papagaio na coluna recurvada. Folders de lançamento do novo produto. Brieffings para a mídia. Um calor estival, quase Saara. Relógio digital marcando quinze minutos para Qualquer Tempo. Uma vaga sensação de arritmia (fadiga ou problemas coronários). Executivos sempre usam marcapasso, água-de-colônia e longas meias pretas.

(Poemas do livro Pequenas aniquilações, incluído na minha antologia pessoal Figuras Metálicas. São Paulo: Perspectiva, 2005.)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON (V)


RELENDO MOI-MÊME (III)


EGITO

SOMBRA, nome
do que cala,
voz de papiro.
Esta é outra areia;
essa, não aquela
estrela. Estou nu
da face ao torso,
e danço outra vez
sobre os caninos.
Hora de dizer
a flor e o grito,
o que nasce em mim
é tua carne escura.
Egito, vem
de teu umbigo
ao meu segredo.

ÍNDIA

SÓ A LOUCURA.
Vem, do púbis
às omoplatas,
canta o antigo
sol, sua face
de flama animal
raiando desejosa.
Flor de sândalo,
diz ao tempo:
agora é sempre,
fecha tua asa,
expira em fumo
e cobre. Vêm,
Lakshmi-Naráyana,
flagelar o medo,
fustigar a sílaba
muda, para o
tempo de cristal.

GRÉCIA

UM JOGO
de centauros.
Inflama
o trigo da pele;
grita teu olho,
dos pés à cabeça;
teu olho é pele,
teu olho é sol
de sêmen, desfaz
o rosto na água,
acasala tuas éguas.
Depois, lacera-te,
lapida tua boca,
bebe tua urina.
Arde a terra,
arde a carne.
Então, cala bílis
e fleuma; despido
como um deus,
abraça a deusa
do silente mistério.

PÉRSIA

E NÃO TER mais fim.
Noite é espelho
de teu ventre,
bebe dessa fonte,
cessa toda água;
dança outra música,
nem há cordas
ou sopros, então
rasga tua roupa,
nem há trapos;
chora, não há mais
lágrimas. Fogo, arde
o que me queima;
terra, engole-me
num trago. Só canto
e danço os noventa
e nove nomes
de Allah, e rodopio.
Para que fermente
o vinho; e enlouqueça
em seios brancos;
e não diga nada; nem
saiba onde ou quando,
só amor de amor.
Sei,eu sou tu;
agora,sou eterno.

(Poemas do livro A Sombra do Leopardo. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2001.)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON (IV)


RELENDO MOI-MÊME (II)


NOITE-OCEANO

ondulosamente

a noite

azul-turquesa

oceânica

perpassa

em tuas

pupilas

— seda

azeviche

jaspe

negro

pele de

jaguar:

a comum

cegueira


NOITE-SEIOS

luazulada

alvíssima

deslinda-se

no céu

finíssima

auréola:

pó de luz

que cintila

nos róseos

mamilos

desnudados

— lua

em luas

refletida,

prata

em prata

lucilada


TABI

o vento
açoita
bambus:

dançam
sombras.

no caule
da vagem,
o orvalho

resvala
na lua.

o gato
imita
o tigre:

rumor
de aves.

brancas
geleiras
lácteas:

o colo
do cisne.

o fuji
apunhala
a névoa:

fiapos
de branco.

no sonho,
o monge
em viagem:

tudo
é miragem.

(Poemas do livro Yumê. São Paulo: Ciência do Acidente, 1999.)

domingo, 24 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON (III)


RELENDO MOI-MÊME (I)


KNAAT

sépala
fibra de cristal
reflexo
de ouro branco
o musgo
na concha opala
e
o canto
oblíquo
do gafanhoto

tudo isso
— e nada disso —
é o Knaat

AKMA

é
o sílex-
lírio-marfil-cimitarra,
gárgula
do incompreensível
silêncio:
é
a nãoverbena, o nãodiamante, o nãopolifemo
o não
anão
(sombra infracta)
o não
(sim!)
a sós

OS CÂNONES DA DOR

unhas nos sulcos
da pele, em todos
os poros da dor:

a dor que é pedra
no limiar da fala
que verte em suor.

o som do inaudível
uivo — uivo ósseo,
uivo epidérmico —

instila, inflama
todas as suturas
e corre, abissal

em verdes glóbulos
de sonora náusea
e dolorosa repulsa.

(Poemas do livro Sutra, edição do autor, 1992)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON (II)


UMA CONVERSA COM REYNALDO JIMÉNEZ (III)

RJ: Você mencionou há pouco a imaginação como um componente de tua poética. Numa época de todo tipo de “realismos”, não é frequente escutar esta reivindicação. Como opera em tua prática criativa esse elemento aglutinante e por sua vez proliferante da imaginação?

CD: Acho interessante a proposta de romper, na escritura poética, com as normas e limites de uma suposta “realidade” objetiva, incorporando referências simbólicas e culturais, conteúdos e fatos de outras “realidades”, presentes em mitologias, filosofias, sonhos, filmes, poemas e demais experiências. Como já fizeram, séculos antes de Dali ou Breton, pintores como Bosch e Brueghel ou escritores como Dante e Shakespeare (para não falar do Sousândrade do Inferno de Wall Street). Discordo, no entanto, de aspectos básicos da estética e do pensamento surrealistas; minha poesia é planejada, calculo os efeitos, os recursos, a linguagem, ainda que incorporando sugestões da intuição e do acaso. Por outro lado, os surrealistas conservaram intacto o “verso”, embora como verso livre (unidade melódico-sintática do poema), a gramática e a linearidade do discurso; todo meu esforço vai no sentido oposto, ou seja, rumo à fragmentação da sintaxe e desarticulação da lógica discursiva, por meio de outras formas de associação entre as palavras. claro que, em alguns textos, mesclo de maneira deliberada objetos banais como arames, garrafas, botas de borracha, a imagens de jaguares ou minaretes. Para quê? Para provocar estranhamento e subverter a suposta “normalidade” do cenário (e da escritura), numa espécie de ação de desmascarar o cotidiano, mostrar seu absurdo, sua tênue fronteira com a “irrealidade”. São caricaturas, sátiras verbais, com todo o exagero sugerido pela própria loucura do “real”.

O poeta, para mim, é um criador de outras realidades; pelas relações inusitadas entre as palavras, ele articula novas formas de pensamento e, logo, novos modelos de mundo. Esse é o potencial subversivo da linguagem, é, digamos, sua ação política. O artista questiona as formas viciadas de viver, sentir e pensar, reflete criticamente sobre a lógica do poder estabelecido, e não se pode cumprir esta missão com formas estéticas convencionais. É preciso criar sempre novos instrumentos de guerrilha cultural, pois não é possível questionar estruturas sociais sem colocar em xeque também o mecanismo de pensamento e a linguagem que são produzidos por essas mesmas estruturas. Quando alguém recorre a formas de escritura tradicionais, ainda que aborde temas “sociais”, não estará fazendo nada além de reproduzir os modelos de ideias vigentes na sociedade. Ao romper com estes padrões e propor outros modelos de comunicar ideias e sensações, o poeta não está conduzindo uma insubordinação aparente, mas uma transformação profunda, que produz novos conteúdos, em uma rebelião contra o banal imediato e o lugar-comum. Tal é o papel da imaginação e da renovação estética: ser também uma ruptura com padrões rotineiros de consciência.
(Continua)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

GALERIA: CARTIER-BRESSON


UMA CONVERSA COM REYNALDO JIMÉNEZ (II)


RJ: Você caracterizou a tua poesia pela “brevidade de linhas” e “concisão de imagens”, mas, por outro lado, mencionou a paixão barroca. Ao contrário do que se supõe, o barroco permanece mais como um conceito arquitetônico em suas composições, inclusive as verbais, que a mera dispersão acumulativa ou horror ao vazio que se lhe atribui. Agora, segundo percebo, as práticas contemplativas se concentram também no vazio. O que isso te sugere?

CD: Creio que a minha escritura se situa em uma zona fronteiriça entre a concisão e o excesso, a geometria e a vertigem, o equilíbrio e a fúria. Gosto de explorar estruturas, formas de composição, sonoridades, sem permanecer fixo em único ponto. Quando conquisto uma forma poética, ela perde todo o interesse para mim, e saio em busca de outra forma. É o meu código de conduta pessoal, o meu bushido: não repetir o que já fiz (neste caso, é preferível permanecer em silêncio), mas intentar outras formas de escolha e combinação entre as palavras. Minha formação literária inicial esteve marcada pela leitura dos simbolistas, como Baudelaire, Mallarmé, Rimbaud; com eles, aprendi a alquimia verbal, a sinestesia, o gosto pela estranheza das imagens. A poesia não como cópia mimética do cotidiano, o registro fotográfico de circunstâncias, mas como criação de outras realidades pela palavra (nesse ponto, podemos recordar Huidobro e sua defesa da poesia como um universo “com sua própria fauna e flora”). Sem dúvida, esses pontos luminosos estão presentes até hoje no que escrevo; no entanto, o descobrimento de João Cabral, da Poesia Concreta, já na adolescência, mudou a minha maneira de ver a construção do poema, disciplinando a seleção e associação dos vocábulos, de um modo planejado. Não acredito em uma poesia puramente intuitiva, à maneira da escrita automática dos surrealistas, mas tampouco ambiciono uma pura matemática ou arquitetura impessoal. Há em meus textos muitos elementos da subjetividade, das obsessões do imaginário, ainda que tudo seja modulado segundo uma lógica estrutural precisa: alucino com método.

Creio que meus primeiros poemas aceitáveis nasceram desse matrimônio entre céu e inferno, a exuberância sensorial dos simbolistas e o artesanato rigoroso da vanguarda. A leitura posterior dos neobarrocos latino-americanos me abriu outras portas, mostrou outras possibilidades de investigação poética, com uma luxúria semântica bizarra, ainda que bem ordenada. Comecei a estudar e traduzir esses poetas, como José Kozer, Eduardo Milán, Victor Sosa, Reynaldo Jiménez, e sem dúvida há ecos da pérola irregular transplatina em meus escritos. No entanto, nunca quis ser um poeta “neobarroco”, assim como não sou “concretista” ou “pós-simbolista”. Tento criar uma linguagem própria a partir dessas leituras díspares, inclusive contraditórias, sem restringir-me a um único discurso.

Minha poesia é algo como um jazz fusion, uma mescla programada de referências (e poderia acrescentar o muito que devo a Herberto Helder e Paul Celan, além dos diálogos com a pintura e o cinema). Não quero filiar-me a nenhum conceito estanque. Por outro lado, não vejo contradição entre o “artesanato furioso” do barroquismo e certa economia de recursos: a riqueza imagética, a invenção sintática e outros rituais da religião de Lezama podem estar presentes em estruturas concisas. O que me fascina no barroco moderno é a síntese que opera entre diferentes repertórios culturais e linguísticos, desobedecendo limites impostos pela história e pela geografia, fazendo da atualidade um momento de encontro de culturas. Isto me interessa muito, já que sou um admirador da música clássica européia e também dos cantares chineses, tibetanos, africanos. Tudo isso me alimenta. Se logrei formar uma voz pessoal, ela será uma reverberação de vozes, de ecos, um mosaico composto de tudo aquilo que minha imaginação foi capaz de reunir e combinar, a partir de um repertório escolhido e de minha experiência de vida (que inclui os fatos ocorridos e os sonhados). Não creio ser possível escrever sem dialogar de algum modo com a tradição (claro, aquela tradição pessoal, que nós escolhemos). Por outro lado, a tradição não é mais do que uma sucessão de rupturas, de rebeldias contra os cânones estabelecidos (Dante é clássico hoje, mas não o foi em seu tempo). Seguir a tradição, assim, é traí-la, reinventá-la, de acordo com a nossa capacidade de traduzir em palavras aquilo que o duende nos sugere.

(CONTINUA)

GALERIA: ALEXANDER RODTCHENKO