quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

GALERIA: JOÃO ESPINHEIRO


DO LIVRO POETA EM NOVA YORK (XVI)

IGREJA ABANDONADA
(BALADA DA GRANDE GUERRA)

Eu tinha um filho que se chamava João.
Eu tinha um filho.
Perdeu-se pelos arcos numa sexta-feira de todos os mortos.
Eu o vi brincar nos últimos degraus da missa
e jogava um cubinho de folha-de-flandres no coração do sacerdote.
Golpeei os ataúdes. Meu filho! Meu filho! Meu filho!
Saquei uma pata de galinha por trás da lua e logo
comprendi que minha menina era um peixe
por onde se afastam as carretas.
Eu tinha uma menina.
Eu tinha um peixe morto sob a cinza dos incensários.
Eu tinha um mar. De quê? Meu Deus! Um mar!
Subi a tocar os sinos, mas as frutas tinham vermes
e os fósforos apagados
comiam os trigos da primavera.
Eu vi a transparente cegonha de álcool
aparar as negras cabeças dos soldados agonizantes
e vi as cabanas de borracha
onde giravam as taças cheias de lágrimas.
Nas anêmonas do ofertório te encontrarei, meu coração!,
quando o sacerdote levanta a mula e o boi com seus fortes braços,
para espantar os sapos noturnos que rondam as paisagens geladas do cálice.

Eu tinha um filho que era um gigante,
mas os mortos são mais fortes e sabem devorar pedaços de céu.
Se me filho tivesse sido um urso,
eu não temeria o sigilo dos caimães,
nem teria visto o mar amarrado às árvores
para ser ferido e fodido pelo tropel dos regimentos.
Se meu menino tivesse sido um urso!
Me cobrirei com esta lona dura para não sentir o frio dos musgos.

Sei muito bem que me darão uma manga ou a gravata;
mas no centro da missa eu quebrarei o timão e depois
virá até a pedra a loucura de pinguins e gaviotas,
que dirão aos que dormem e aos que cantam pelas esquinas:
ele tinha um filho.Um filho! Um filho! Um filho
que não era mais que seu, porque era seu filho!
Seu filho! Seu filho! Seu filho!

Tradução: Claudio Daniel

GALERIA: JOÃO VILHENA


segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

DOIS POEMAS DE FIGURAS METÁLICAS

FORMIGA

Pequeno dragão
doméstico.

Cabeça grávida
de hibisco.

Rústico abdome-
cogumelo.

Escava o incerto
dos dias,

para a trilha
vertical

de farelo,
fúria e folhas.

Carrega seus mortos
nas costas,

com precisa
geometria

de fábrica
fúnebre.

CABEÇAS DE FORMIGA

Como este breve sentimento de decomposição, falanges
à maneira do escuro.
Linha tênue de folhas recortadas
e cabeças
de formiga.
Pétalas roxas,
um tipo de bolor.
Passos escuros
no jardim.
Ritmos podres
de cadela.
Fumo branco,
idéias pesadas
e algo que se desdobra no espaço
curvo
em aromas
de tantálico
negrume.

— Nenhuma música, ali; nada além da carne
dos cogumelos
e seu escarro.

(Do livro Figuras Metálicas, de Claudio Daniel. São Paulo: Perspectiva, 2005)

sábado, 26 de dezembro de 2009

UMA RESENHA DE FERA BIFRONTE







André Dick


O barroco – ou neobarroco – é conhecido por sua pretensa ilegibilidade, e E. M. de Melo e Castro, autor do posfácio do mais recente livro de Claudio, Fera bifronte, texto publicado também na antologia do poeta em Portugal, Escrito em osso, escreve:

“A poética do escritor, ou do autor, é a mais remota e obscura. A problemática que leva o autor a escrever o seu texto é fechada e só acessível ao leitor através de hipotéticas tentativas de penetração naquilo a que muitos chamaram “o mistério da criação”. Essa poética é muitas vezes também pouco clara para o próprio autor, no momento mesmo da criação.”

Lendo este fragmento do posfácio – que traz, por outro lado, dados muito interessantes para se entender a obra de Claudio Daniel –, há um elemento a ser debatido: o de o crítico considerar que a poética do autor, caracterizada pelo chamado barroco, é remota, obscura, fechada, pouco acessível ao leitor. A argumentação está de acordo também com aquela utilizada por Hugo Friedrich para caracterizar a lírica moderna. Mais estranho ainda seria essa poética ser pouco clara para o próprio autor. Não me parece adequada essa argumentação tanto no caso da poesia moderna quanto no caso de Claudio Daniel. Sua poesia é elaborada e baseada, por sua própria formação, como leitor da poesia concreta, de poetas simbolistas, da tradição oriental, por exemplo – que não nublam a linguagem, a não ser que se considere que a utilização de signos em uma sintaxe mais entrecortada seja inacessível ao leitor – na linguagem. Mais adequado parece ser entender que na poesia de Claudio haja uma “cadeia de significantes”.

Para Severo Sarduy, o barroco “consiste em obliterar o significante de um significado dado, substituindo-o não por outro, por distante que este se encontre, mas por uma cadeia de significantes que progride metonicamente e que termina circunscrevendo o significante ausente, traçando uma órbita ao redor dele, órbita de cuja leitura – que chamaríamos leitura radial – podemos interferi-lo”. O neobarroco, segundo Claudio Daniel, em sua introdução à antologia Jardim de camaleões, não é uma vanguarda stricto sensu – ou seja, não é um movimento considerado apenas possível no “primeiro mundo” ou um movimento a ser copiado por autores de uma tradição pobre –, à medida que “não se preocupa em ser novidade”: “ele se apropria de fórmulas anteriores, remodelando-as, como argila, para compor o seu discurso: dá um novo sentido a estruturas consolidadas, como o soneto, a novela, o romance, perturbando-as”. A restrição da obra do poeta ao neobarroco parece equivocada – isso porque essas características acima podem ser vistas em qualquer poesia construtiva, com influência ou não do barroco, o que pouco importa para seu entendimento no sentido mais amplo, e encobrem seu diálogo com autores como Herberto Helder, citado na epígrafe.

O fato é que Fera bifronte expande uma poética que vinha se delineando mais sintática desde A sombra do leopardo, ou seja, mais voltada à construção de um verso contínuo, que vai se construindo tanto por enumerações (característica de certo poema moderno) quanto por idéias que adotam vários discursos.

“Tudo é cinema mental”, escreve Claudio em Estudos de anti-realidade. De certo modo, esse “cinema mental” corresponde-se com sua narrativa poética Romanceiro de Dona Virgo, que parece ser antecessora do poema Anticabeça II e da série Gabinetes de curiosidades, em que o poeta lança uma visão extremamente crítica sobre o universo contemporâneo, enfocando três ambientes: o sex shop, o pet shop e o coffe shopp, nos quais visualiza uma certa decomposição do sujeito moderno: “Aceitamos todos os cartões de crédito e os animais, como os seus donos, devem ser castrados” ou “Cabeças de executivos são caixas registradoras com um número limitado de palavras”. Essa paisagem humana ligada a um universo animal está presente também no poema Fera, que encerra a obra – a “fera” como uma metáfora que configura, sobretudo, a violência, com gestos ríspidos, desde o poema Muro. O ser humano parece se transformar exatamente nessa “fera”: “Em branco aniquilar / sua mandíbula, / aberta como fenda sexual / interrogante” (Fera). Esse ambiente de violência capta, ao mesmo tempo, um universo de animais: “palavras desventradas / da cadela” (“Escrito em osso”), “ambivalência do inseto / que se desenha íbis, / amêijoa, escaravelho, / folhas ou fíbulas, fúrias ou órbitas” (Anticabeça I), “Peixe branco, gris ou amarelo / desgarrado de sua gueldra, / no desvio das águas” (Desvio) – até a figura do corvo, presente em vários poemas.

Se há, em Partitura, referências a “raios de um sol / que redesenha seu centro; / essa matéria tão delicada, / ferozes epitélios da flor”, o certo é que na poética de Claudio predomina uma paisagem desolada, em que surge um “céu abortado” (Betty Blue), a paisagem é feita de “dissoluções” (A memória), corpos passam por um contínuo sofrimento, não só no poema “Fera” final, com sua imagética violenta, mas em outras peças igualmente fortes: “mordendo os próprios pulsos / movimenta-se, / desorientado” (Anticabeça IV); “Até consumir todo o olhar / e desfazer a pele / obsoleta” (Muro); “Paraíso clorofórmio: / inscrever o exílio / dos lábios na pele, / mentalizada e muda” (Betty Blue); “escura caligrafia / rasurando crânios”; “órgãos retirados / de corpos sem autópsia” (Escrito em osso); “Desabitar os fêmures, / os tendões / do que obceca” (A memória); “Vozes multiplicam-se; / lanhadas peles / vociferam, guturais”; “cicatrizes alinhadas / nos pulsos, em desenhos / de fetos inanes” (Paisagem-vértebra). Não há nenhuma linha da tranqüilidade mais remota encontrada em Sutra ou Yumê, seus primeiros livros, mais voltados a imagens da cultura oriental, nem também uma sonoridade mais voltada a imagens que focalizam o zen, embora em Anticabeça I haja o Lao Tzu “rumando ao Sul”.

No plano da interferência simbolista na escrita de Claudio, ao mesmo tempo, há referência a cores – numa espécie de referência a Georg Trakl – como em Escrito em flor, no qual há uma paisagem musical “onde o amarelo / dá sentido ao vermelho”, um “lábio (pétala) / submerge / em topázio-tigre”, “violetas indagam” e “cada abelha sonha / uma rosa imantada”; em Rapto, no qual “[...] a expansão do branco / bifurca-se, espraia-se / esqualidamente / do lábio ao umbigo”; em Estudos de anti-realidade, há um “vago perfume de papoulas, / até dessangrar / as pétalas / do canto”, “cristal negro, / praia negra, / papoula enegrecida”; em Anticabeça II, há um “verde-prata, verde escuro, verde panther, na boca do dragão” e o tempo é sombrio em razão do “branco mesclado ao amarelo”; em Fera”, há “passos súbitos / num deslocamento de vermelhos”, em Paisagem-vértebra, há “unhas negras, / peitos brancos”.
(Excertos de O cinema mental de Claudio Daniel, de André Dick. Leiam o texto na íntegra na revista Germina.)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

GALERIA: MARUTA CESNAUKA (V)


ZUNÁI, REVISTA DE POESIA E DEBATES

Ano VI, n. XIX, dezembro de 2009

Opiário-escaravelho: 90 anos de poesia surrealista

Apontamentos de leitura: Helder e Celan, de Claudio Daniel

A poética dionisíaca de Al Berto, de Rodrigo da Costa Araújo

João Cabral, Irmãos Campos, Leminski, de André Dick

Coordenadas poéticas de uma China especial, de Mônica Simas

A língua é um animal em metamorfose: uma conversa com Jorge Melícias

Alguna poesía brasileña, de Rodolfo Mata

Galeria: exposição virtual de Ramón Antopolski

Cartas de despedida: seis escritoras suicidas, antologia organizada por Silvana Guimarães

Traduções de Allen Ginsberg, André Breton, Paul Éluard, Robert Desnos, Benjamin Péret, Aimé Césaire

Poetas da Colômbia, República Tcheca, Finlândia, Portugal, França, Brasil, Argentina, México, Uruguai

Zunái, Revista de Poesia & Debates (www.revistazunai.com).

Preço: Inefável; inconcebível.

Onde encontrar: no ciberespaço, essa “Gran Cualquierparte” (Vallejo).

GALERIA: MARUTA CESNAUKA (IV)


DOIS POEMAS DE WILSON BUENO

17

Lancinantes os bicos-pássaros
Com que vos fura o túmido ventre
Já cadáver de nós e de nossa víscera
O que chamamos Amor, suas anáguas,
Festim de lírios, zumbir de abelhas
O que de Amor foi enlevo e até cansaço
– Mesmo o açoite e as costas em brasa? –
Se fomos um no Amor consorte
E hoje somos, Amor, retalhos de nós mesmos,
Pobres panos, chita, organdi, seda rala
E foi Amor, sim, que nos fez tão inimigos!

28

Cai-me ao colo Amor de súbito
Um susto, um esgar, um bramido.
Estertor de tudo – desamor Amor ao avesso?
Quero-vos lúmpen, maltrapilha, campesina
Quero-vos riacho e manso açude.
Amor, entanto, vocifera pontiagudo
Mural de rochas e lascas e espelhos e cardumes
A fingir do Amor – casta figura? –
O Desamor em pêlo, às turras,
Aos vozeios, facas, murros, unhas
A alvoroçar o silêncio de agulhas.

(Do livro inédito 35 Poemas de Amor.)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

GALERIA: MARUTA CESNAUKA (III)


2009 TAMBÉM TEVE POESIA...

Entremilênios, de Haroldo de Campos. São Paulo, Perspectiva.

Lar, de Armando Freitas Filho. São Paulo: Companhia das Letras.

Paisagem II, de Horácio Costa. São Paulo: Demônio Negro.

Quando este meu generoso coração falhar, de Horácio Costa. São Paulo: Arqueria.

Trânsitos, de Virna Teixeira. Bauru: Lumme Editor.

Prática do azul, de Jorge Lúcio de Campos. Bauru: Lumme Editor.

Fronteiras da pele, de Ana Maria Ramiro. Bauru: Lumme Editor.

O sexo vegetal, de Sérgio Medeiros. São Paulo: Iluminuras.

A densidade do céu sobre a demolição, de Casé Lontra Marques. Rio de Janeiro: Confraria.

Caga-regras, de Rodrigo de Souza Leão. Rio de Janeiro: Virtual Books.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

GALERIA: MARUTA CESNAUKA (II)


2009: ESTE ANO FOI FODA

Caros, eu não vou escrever um balanço deste ano que se aproxima do fim (e cá entre nós, não vejo a hora que termine). Estou mais interessado em planejar ações para 2010, como o lançamento de Letra Negra na Casa das Rosas, em janeiro, entre vários outros projetos literários e pessoais. Porém, não resisto a fazer um breve comentário sobre o pior ano de minha vida. É verdade, também aconteceram coisas boas; escrevi minha dissertação de mestrado sobre Ana Hatherly, fiz a defesa em junho e recebi o título de mestre em Literatura Portuguesa pela USP (agora, preparo-me para ingressar no doutorado, em 2010); obtive a faixa amarela no Aikidô (em março, farei exame para a roxa), continuei praticando Tai Chi Chuan e Espada de Tai Chi, publiquei Fera Bifronte, talvez o meu melhor livro de poesia até agora, escrevi artigos para revistas universitárias do Brasil e de Portugal, criei o Laboratório de Criação Poética, organizei o evento Artimanhas Poéticas, no Rio de Janeiro, participei da antologia Alguna Poesía Brasileña, organizada por Rodolfo Mata, que saiu no México, pela UNAM, entre muitas outras realizações no campo literário (e aqui vou abrir um parêntesis para citar a coleção Caixa Preta, que organizo para a Lumme Editor, que publicou mais três títulos neste ano, de autoria de Virna Teixeira, Jorge Lúcio de Campos e Ana Maria Ramiro). Meu filho Iúri cresce inteligente, saudável e feliz; com certeza, ele é a minha obra-prima (realizada em parceria com Regina, my wife). Estive em Recife, participando da Bienal Internacional do Livro, e aproveitei a ocasião para rever amigos queridos e revisitar igrejas barrocas (pela arquitetura, já que não tenho vínculos com o cristianismo). Completei um ano inteiro sem fumar, o que não é pequeno desafio (quem já tentou largar o cigarro sabe do que estou falando). Porém, cheguei a uma situação de completa falência financeira, sem nenhuma perspectiva imediata para a resolução desse problema. Cheguei ao fundo do poço, endividado até o último fio de cabelo. Faço votos que em 2010 as coisas mudem, ou terei de fazer as malas e mudar-me para Saturno.

Besos,

Cld.
P.S.: a Zunái está diagramada e revisada; tão logo nossa webmaster conclua as correções, a revista entrará on line.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

GALERIA: JOÃO ESPINHEIRO




UM POEMA DE HENRIQUE RISQUES PEREIRA

UM GATO PARTIU À AVENTURA

As palavras de vidro que tu depões em teus seios, para me ofereceres, raspam estridentes na camada inacessível dos meus olhos;
Caem e eu sonho para espalhar plumas nos espaços;
Trago na mão esquerda, hermética, fechada duramente, as delicadas linhas epidérmicas,
Leio nesse rendilhado de sensações o roteiro da minha viagem livre, o meu voo solitário, que eu inicio saltando dos telhados para as janelas;
É na abstracção hipnótica do rosa íris que eu te vejo acompanhar a estranha aventura dum albatroz,
E é ao cair da noite que eu aceno longamente os meus braços;
É na harmoniosa vibração azul que eu transmito o Sol vermelho do poente e da tristeza, e , quando as minhas mãos se transformam em pérolas puras, os teus olhos gelam para serem os gigantes da noite;

Livre um gato desliza pela goteira escura da cidade,
livre uma pequena ilha nasce no ponto ignorado do Oceano,
livres as ondas escorregam na superfície marinha,
livres os pássaros e os cavalos na noite da lua encarnada,
livre eu chamo-te dos cumes das serras,
livres as ondas os cavalos e os pássaros;

Abandono a terra da ilha para viver nos abismos, nas cidades que crescem, nos beijos que enchem o vento,
E oiço a imensa máquina que esmaga o ferro da estrada construída, a cortina sedosa dos teus cabelos, eu e tu,
e vejo o cego que avança com os braços levantados para o mundo incompreensível,
e liberta os corpos visíveis: os teus lábios, os teus seios, o teu sexo; e mães batem às janelas e imploram: LAMA!,

A um canto morre em agonia o primeiro grito;

O gato parte à aventura pelos telhados, pelos vales e pelos sonhos.

(A Zunái está diagramada e em fase de revisão, ufa...)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

GALERIA: MARTIN YUSTI


DOIS POEMAS DE MÁRIO CESARINY

POEMA

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


O GATO DITO DOMÉSTICO OU DE LINEU

Primo em linha recta do Gato Legível, uma nem sempre fundada tradição de abandalho pesa sobre a origem egípcia, eminentemente cruel e aristocrática, dos da sua espécie. O GATO urina com êxito nos objectos de lar, e quando a angina estala enfim os peitos da patroa que julgou poder fretá-lo para pequenas voltas, O GATO esfrega os olhos, abre uma janela, e voa toda a noite, de barriga para cima. Nestas surtidas voantes encontra-se por vezes com os seus camaradas libertários, e então acendem fogos que, uma vez por ano, formam cortejo em direcção à Lua, onde um gato já cego os devolve aos espaços, transformados em cinza e em máquinas de luar.

(Sim, a Zunái está atrasada, eu sei, mas logo estará on line, com mais poemas de Mário Cesariny...)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009